Um fenômeno, um fenômeno. Mesmo sem estar em campo, Ronaldo acaba de superar o mito, o Rei, Pelé. O placar informa que terminou o primeiro tempo e o gol teria sido dele. Deve ser um engano.
Faltavam algumas horas para o jogo e eu ouvi. Melhor, a Letícia e a Luana, 10 e 8 anos, amores da minha vida, indagaram, quase em desespero:
-Pai, o Ronaldo não vai jogar. Deu na Globo. É porque ele comeu muito?
Não, filhas, não. Mas se a Globo deu, a gente não discute.
Me lembrei de 98. Letícia tinha 2 anos, Luana nasceria durante a Copa. Estava dormindo, depois de uma noitada na redação, quando a Le entrou esbaforida no quarto:
-Pai, pai, coltalam o Lomálio, coltalam o Lomálio, falô na tevelisão...
Difícil explicar que o Romário não sangraria com aquele corte. (Pelo menos por fora).
A bombástica informação dessa Copa 2006 aterrissa no centro de mídia – isenta, imparcial e objetiva, como sabemos. Todos, quase todos, embarcam: Ronaldo no banco contra os japônios.
Pululam teorias, teses, confirmadíssimas, do porquê. Uma explanação sobre calorias é a dominante.
Moraci Santana, na véspera, divulgara um dos segredos mais bem guardados da República: o peso do Ronaldo. Noventa quilos e meio. Cinco a menos do que quando desembarcou na Suíça.
Ronaldo teria ficado furioso, cobrado Moraci, e ido parar no banco, é a informação que prevalece.
Toninho e a armata do Terra se entreolham. Digo ao Prada:
-Se a Globo deu, deu. São as tábuas da lei...
Ele e os rapazes, Wanderlei Nogueira junto, concluem:
-É fria.
E não embarcam.
Intervalo. Encontro a rapaziada e comento:
-Um fenômeno, um fenômeno. Mesmo ser estar em campo o cara marca.
Prósperi e toda a turma do Jornal da tarde, vários se juntam:
-Não pira, cara. É ele...
Resisto:
-Imagina! Deu na Globo. E o gol ainda foi de cabeça! Sem chance. Deve ser o Adriano, o Luisão... e eu vi! E eu li. Juro que li.
Foi enorme a quantidade de matérias sobre a ausência do Ronaldo no jogo, li algumas aqui no templo da objetividade, já quase prontas quando ainda faltava uma hora para a partida!
Toca o telefone:
-Pai?
-Sim, filha...
-Gostou do gol do Ronaldo?
Pois é, filhas. São coisas que acontecem, são coisas do futebol. Todos erramos. Até o papai, imaginem, erra. Aliás, ele errou logo na estréia.
Rádio Jornal do Brasil, Salvador, entrando no ar naquele dia e hora. Pergunto ao Frei:
-O senhor poderia falar um pouco sobre a morte de Dom Timóteo?
-Posso, filho, só que quem morreu não fui eu, foi Dom Jerônimo.
E não é que era o Ronaldo? Pedaladas, dois gols, ia fazendo um terceiro para a história das Copas, aquele do taquito do Gaúcho.
Na véspera, na zona de entrevistas, eu o vira passar, uma garrafa de Coca na mão esquerda, já pela metade. Não era light. Indaguei-me:
-Será que é chá preto?
O jogo acabou. Quatro a um contra os japônios, fora o baile. Ronaldo, o melhor em campo.
Encontro, aqui no centro da imparcialidade, muitos com quem falei antes, com quem tenho falado nestes dias de debate mundial sobre as calorias do Ronaldo
Vários são gringos.
Os mesmos que me entrevistaram sobre a coca preta, a existência ou não dos nuggets na dieta. Pergunto a uns e outros:
-Amigo, há publicado las notícias sobre el gordo?... Hi, are you publish your article about the fat?… Ciao, bella, e Ronaldo, sei grasso?
Estão todos com pressa, muita pressa. Uns quatro fazem grande esforço para não me enxergar. Corro ao Google. Ele está nas capas do mundo:
-Ronaldo quebra o recorde de Pelé em Copas do Mundo (Globe and mail, USA).
-Gordo de Alegria.(Olé, Argentina)
-O renascimento de Ronaldo. (Sport, Itália.)
-Ronaldo iguala o recorde de Müller.(Agência Ansa, Itália).
-Ronaldo iguala Müller.(Nouvele Observateur, França.)
-Ronaldo renasce. (Site da UEFA)
-Ronaldo, cada vez melhor.(L ‘Equipe, França.)
-Ronaldo entra para a história. (France Football)
criado por
Bob Fernandes