Início da tarde, muito calor. O bosque que cerca o Castelo de Lerbach é algo para a literatura. Não por acaso Parreira quer esticar a estadia por mais dois dias, ficar até a quinta 29, se a seleção amarela bater os ganos.
Parreira, desde o ano passado, se apaixonou por Lerbach. O silêncio é absoluto, a mata é espessa, bem cuidada, e em frente ao casarão o lago empresta o toque final ao bucolismo do cenário.
Quem se hospeda aqui está obrigado a fazer melhor o que tem a fazer, seja o que for.
Ronaldo, sentado numa cadeira no meio do gramado, aparenta tentar dar o melhor de si. Tenta, mas deixa visível sua impaciência. Dezoito gravadores, e seus donos, o cercam. As perguntas sucedem-se, por cinco, dez, quinze minutos, até o final de cada bateria.
Primeiro entrevistam os de rádio e internet. Quando saem estes, vêm os meios impressos, depois a televisão. Escalados para a batalha estão, além de Ronaldo, Juan, Roberto Carlos e Emerson.
De calção, camiseta e tênis, Ronaldo tem nas mãos a chave do seu quarto. Responde no automático enquanto abre e fecha o encaixe que prende a chave à correia no pescoço.
-Tlec, tlec, tlec, tlec...
A menos de 10 metros, esparrachado no gramado, enorme, um cisne branco.
Monocórdio, treinadíssimo nesse jogo, Ronaldo rebate, uma a uma, as perguntas. Rosto sério, sem um sorriso, faz de conta que esconde enquanto deixa à mostra a impaciência. Uma impaciência estudada. Aprendida e apreendida.
Faz lembrar, muito, o Romário de 94. Não lembra, em quase nada, o Ronaldinho, menino alegre e saltitante de 94, o apreensivo, mas ainda não na defensiva, Ronaldo de 98. Ele tem suas razões para tanto.
Sabe que cada pergunta pode conter uma armadilha. Quando pressente o perigo, seja real ou imaginário, dá de bico:
-...isso é impressão sua...você é quem tá falando... essa análise é você quem faz...essa é a sua opinião...meu peso é algo que só interessa a mim e a mais ninguém...
(Ronaldo, percebe-se, não tem gordura aparente no corpo).
É um jogo de gestos. E os gestos dizem tudo. Emerson está de pé, permanece de pé por todo o tempo, e fala para meia dúzia de repórteres. Juan, nesse instante, para uns quatro ou cinco, sempre de pé. Roberto Carlos, mais uma meia dúzia, de pé.
Outros três ou quatro cercam a roda que já cerca Ronaldo. Todos, homens feitos. Pais, um ou outro já avô. Com os braços esticados para baixo, a olhar para baixo, a dirigir suas perguntas para baixo, a empunhar gravadores voltados para baixo, para o rapaz de 29 anos. ...cinco, dez, quinze minutos... E ele, Ronaldo, sentado. Sem olhar para cima, sem olhar para ninguém enquanto responde:
-...não me interessa se quem vai ganhar é a Alemanha ou a Argentina, o que me interessa é o Brasil...
-...O Adriano chateado? Não tem ninguém chateado, estamos todos unidos, uns ajudando aos outros, só pensamos em vencer a Copa do Mundo...
-...o Brasil não tem que se preocupar com ninguém, os adversários é que têm que se preocupar com o Brasil..
Luis Antônio Prósperi, do Jornal da Tarde, pergunta:
-Você fica chateado pelo fato do Brasil, você, serem questionados o tempo todo, terem que provar quem são o tempo todo?
-Já estou acostumado. Minha vida tem sido provar isso o tempo todo...
Outra pergunta:
-Ronaldo, você se queixa da imprensa, mas quase todos ex-jogadores que se tornam analistas, cronistas, terminam por fazer críticas da mesma forma. E não só no Brasil. Há quarenta dias o Klinsmann, da Alemanha, era um idiota, hoje é um semi-deus...
Alguns poucos segundos de reflexão:
-Bem, eu não sei quais são os critérios que vocês jornalistas usam, cada um faz seu trabalho...
E o fecho da chave:
-Tlec, tlec, tlec,tlec...
A cicatriz na parte posterior do joelho direito é impressionante. As perguntas se sucedem. E as respostas, sempre monocórdias:
-Estamos unidos para ganhar a Copa...
Os jornalistas se rendem, pouco a pouco. Dali não vai sair mais nada. Fim da conversa formal. Quase todos se afastam. Ficam uns três ou quatro, nos quais ele certamente confia, pelo menos um pouco mais.
Ronaldo relaxa, sorri. Sentado. Esparramado na cadeira no meio do gramado do Castelo Lerbach.
A conversa, conversa de homens, sem gravadores, agora flui. Ronaldo gargalha.
Emerson, ameaçado, cada vez mais, pelo futebol de Gilberto Silva, segue em pé. Explica, responde, fala. Sobre ele, sobre a entrada ou não de Gilberto Silva em seu lugar. Sobre Gana.
Os cabelos, já rarefeitos na porção superior dianteira, penteados na direção onde escasseiam.
Será a luz, a proximidade, o resultado do abaixar-se um pouco para chegar aos gravadores, ou Emerson está um pouco mais corcunda?
Ronaldo segue sentado, ainda mais largado na cadeira. A mão direita escorrega pelo calção, se coça, num gesto absolutamente masculino. Alguns repórteres seguem a cercá-lo, sempre a olhar para baixo.
Ronaldo não olha para cima, busca o gramado, o lago à sua frente – o cisne segue deitado a 10 passos, agora de olhos postos na sua imagem refletida na água -, comenta:
-...quem vai jogar comigo, eu não sei, o que eu quero é estar lá....gol duzentos na Copa? Legal, se vier, é mais uma estatística... mas o que eu quero é ganhar o jogo, a Copa...
Juan segue de pé. Brinco prateado e uma jóia incrustada no lóbulo da orelha esquerda. Juan, se não o melhor, o mais regular jogador amarelo na Copa, o homem que joga de fraque e cartola, atende a dois jornalistas:
-Você não falava nada, está falando mais agora...
Ele, que joga e mora na Alemanha, responde, com sua língua presa:
-A gente vai vivendo, fica mais velho...e também estamos há muito tempo sem conversar com quase ninguém, só entre nós...e ainda mais na nossa língua, em português...
Roberto Carlos. Em pé, a sorrir. De quando em quando, em campo, o lateral parece se desligar da importância, aparenta estar a disputar um Olaria x Bangu quando está é numa Copa do Mundo. Agora fala sobre Robinho, o grande assunto, a incógnita, o mistério do dia.
A ressonância magnética é no dia seguinte. Pouco depois da conversa no castelo, o médico, Runco, diria não ser possível ainda fazer previsões. Roberto, pela sem cerimônia em campo, nas entrevistas, dá pistas de não ter completamente estruturado o superego.
A auto-censura é pouca, quase nenhuma. O lateral dispara, entrega:
-Conversei com o Robinho, ele me disse que não vai dar para jogar...
Quando, em quase todas as noites de Bergisch Gladbach, faz dali o Jornal Nacional, Fátima Bernardes ouve o grasnar de um pato. Já até alertou seus telespectadores sobre a existência do pato, dos patos, daquele ruído ao fundo.
Fim das entrevistas.
Ronaldo, segue sentado em sua cadeira. Esparramado. Aguarda a próxima horda. Agora, a da televisão. Com o fecho da chave nas mãos:
-Tlec, tlec, tlec...
Os repórteres, essa fornada, se vão. Passam pela beira do lago. Pelo cisne, enorme, interminável, branco. Um repórter se aproxima, aponta a lente, fotografa. O cisne o encara, de baixo para cima, e, monocórdio:
- Croac, croac, croac...
criado por
Bob Fernandes