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30.06.06
Ronaldinho Gaúcho: ou encara ou... a fila anda
foto: Reuters

Ele é tímido. De alguma forma sua origem o estimula e o inibe. Quando diz que o preconceito contra si é por conta de ser quem é e de vir de onde veio expõe o essencial para se entendê-lo. Mesmo que esteja certo.
Se entender a sede que o move. Moveu em 2002, e desde antes, ainda na sua Paulista, interior de Pernambuco. Ele já fora bem em 98. Mas continuava sob suspeita. Alguma suspeita. Não para todos, mas para muitos.
A timidez, o jeitão desengonçado configurado nas pernas arqueadas, a incapacidade para compreender, ou para enfrentar, os códigos do Curralzinho de Darwin, onde a mídia –quase sempre isenta, imparcial e objetiva - luta para sobreviver, o conjunto da obra o levou a estar sob eterna suspeita: no instante decisivo ele falharia.
Não falhou. Nos instantes decisivos, na Copa de 2002, foi protagonista, talvez o principal, ainda que muitos ainda não tenham notado, ou sigam a dizer que não.
Além do que fez em toda a Copa, como havia feito em 98 - à exceção da final quando ninguém fez quase nada -, no instante decisivo ele não falhou. Ao contrário, assumiu o comando, brilhou.
No primeiro gol de Ronaldo ele disparou o torpedo rasante que levaria à queda do até então invencível Oliver Khan. No segundo, criou a centelha, o corta-luz que reduziu a racionalidade germânica à condição em que pode ser derrotada pelo improviso.
Rivaldo abriu de supetão as pernas arqueadas e a bola na diagonal enfiada por Kléberson encontrou Ronaldo, que a dominou, escolheu o canto e tocou, no gol que sacramentou o penta.
Ele ainda sonhou com esta Copa. Gravou seus 14 gols no bicampeão Olimpiakos, da Grécia, mandou a fita para o Brasil, mas já era tarde. Estava fora.
Recordo Rivaldo por conta de expectativas distintas, quase opostas, em relação ao 10 de agora na seleção amarela.
Ronaldo, o gaúcho. Melhor do mundo, gênio, Rei de Barcelona, campeão da Europa, mais malabarista com a bola do que as focas e golfinhos do aquário de Baltimore, candidato –indicação não feita por ele, anote-se - a “ganhar o mundial sozinho”.
A ver.
Não cometerei aqui o pecado de entregar-lhe o mesmo fardo que jogaram nas costas do outro Ronaldo – e do qual ele só começou a se livrar três gols depois. Mas, vamos aos fatos.
Noutro dia ele disse que jogava mais atrás por determinação do professor Parreira. No jogo contra os ganos (Ai, ui, e vêm pauladas de quem não aceita meus ganos, francesos e assemelhados, mas, como eles são meus...) o professor enfiou o Juninho e jogou-o para a frente.
E aí? Aí, nada.
Normal. Em 2002 ele era coadjuvante, não o anunciado dono da cocada preta. Saiu-se bem. Agora ele é, foi ainda mais antes da Copa, o centro das atenções.
Ronaldo, o outro, o Fenômeno, sabe desde a final em 98, desde sua morte para a bola trombeteada pré- 2002, e desde a tentativa recente de enterrar sua trajetória histórica sob um monte de gordura, o que é ser o centro das atenções.
O que é carregar a fome e a vontade de vencer de quase todo um país.
Ronaldinho, o gaúcho, se alimenta das atenções, quanto mais melhor, como é sempre, deve ser sempre, com quem está no proscênio. Mas ele quer mais, muito mais.
Noutro dia, a bandeira. Barcelona contra alguém. Ele passou a bola para um lado e, milésimos de segundos depois, olhou para o outro lado.
Esse movimento ele costuma executar de forma concatenada: olha para um lado enquanto toca para o lado oposto. Mas no dia em que ele, milésimos de segundos depois de já ter já tocado, olhou para o outro lado, esvaziou a integridade da jogada (belíssima jogada), deu uma pista.
Uma pista do que o move. A fome, insaciável, pela atenção, pela admiração do outro, dos outros, se possível do mundo inteiro.
A hora chegou. Esta é, deveria ser, a sua Copa do Mundo.
Dois, dois e meio, três bilhões de humanos estarão de olhos em Ronaldo gaúcho amanhã. Isso pesa, muito. Às vezes insuportavelmente.
A hora é esta. Ou encara ou...a fila anda.
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