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02.07.06

Outra vez numa copa, a armadilha do oba-oba

foto: Reuters


Escrevi uma carta para minhas amadas filhas, Luana e Letícia, mas a família entende ser esse um assunto de família. Falava de dor, do saber perder e ganhar, essas coisas. Tentava, na verdade, não enfrentar a derrota de frente.

Derrotas, aprendemos também mais esta platitude na vida, ensinam. Vitórias também. Em 94, depois de um empate com a Suécia, sabor de vitória porque classificou o Brasil em primeiro para a fase seguinte, ouvi a lição do grande Di Stefano, mais ou menos nestes termos:

- Vocês, brasileiros, partem do pressuposto que o adversário não existe. É o Brasil que joga bem, ou joga mal, como se o adversário também não estivesse ali para defender, atacar, fazer gols, ganhar.

O adversário, a França, os francesos, novamente foi melhor em campo. Desta vez, não há desculpas. Na verdade, a França deu um show, comandada pelo grande Zinedine Zidane, o Zizou. Ponto.

Em 1966, eu ainda era menino, o Brasil precisava vencer, por muitos gols, não me lembro quantos, o mesmo Portugal que agora Felipão ajudou a levar para as finais. Recordo a foto e a manchete em um jornal.

Diário da Noite? Talvez. Pelé, ajoelhado em uma igreja, e o título, gigantesco:

- Pelé, jogai por nós!

Nem Ele, o Rei, o deus de todos os estádios, conseguiu, conseguiria, pois, lição e platitude número dois: futebol não se joga sozinho, nem com 11 Pelés em campo. Quatro anos depois, com Pelé e um time, o tricampeonato no México.

Lição e platitude número três: sem líderes, batalhas não são vencidas. Aprendemos, deveríamos ter apreendido e aprendido isso, com Didi, Zito, Gerson, Carlos Alberto, Pelé, Romário - silencioso e solitário em campo, mas líder à sua maneira - e Dunga. Sim, o Dunga.

Aprendemos que um líder pode não estar necessariamente dentro das quatro linhas. Felipão - tirei meu chapéu lá atrás, mas com atraso - mostrou isso em 2002, e mostra agora novamente.

Lição e platitude número quatro: aprendemos, deveríamos ter aprendido, com Ronaldo em 98: Copa do Mundo é... Copa do Mundo!

Estamos atolados há um mês na televisão, na internet, na mídia impressa, no rádio, mal se fala e pensa em outra coisa. Copa, portanto, é Copa.

Na brincadeira, já disse um dia um querido amigo gaúcho para as duas filhas e o filho, enquanto saía para uma reunião do conselho do seu Internacional:

- Futebol é mais importante do que a família...

Copa, então...

Isso o Ronaldo aprendeu em 98, quando “apagou” na final. Não se deve, jamais, cair na armadilha do somos-os-melhores, somos-o-melhor. Porque isso para nada serve, salvo para ilusoriamente matar a fome de um país com fome, e com sede de vitória, alguma vitória.

Esse somos-o-melhor-do mundo, esse sou-o-melhor-do-mundo, é uma armadilha. Embora fato para um país que tem 5 Copas do Mundo, uma armadilha.

Armadilha porque quem já esteve, acompanhou, viu, viveu, sabe: uma Copa pesa um mundo.

Uma Copa, para um jogador brasileiro, já tem de saída o peso de uns 180 milhões de brasileiros. É pouco inteligente, portanto, depositar ainda mais peso, mais responsabilidade, nos ombros de quem já carrega tanto.

Ok, vendam seus televisores, pacotes de viagem, carros, jornais, revistas, programas, badulaques em geral, mas na próxima não sobrecarreguem ainda mais os jovens heróis.

Eles, tantas vezes, são mais inocentes do que parecem, mesmo com seus muitos milhões, muitos tudo.

Que na próxima não se diga, a cada dia, hora, minuto, que eles são, que ele é, o melhor, os melhores do mundo.

Que na próxima o oba-oba não torne o fardo insuportavelmente pesado, a ponto de paralisar a tudo e a todos, como vimos nesse 1º de julho.

Que na próxima eles sejam, como tantas vezes foram, serão, os melhores do mundo, mas sem que sejam tangidos para tanto.

Tangidos eles, e tangido, como uma boiada, quem está em casa, no trabalho, na vida, quase obrigado a crer em tudo que lê, ouve, vê. Quase sem ter o direito de perceber, de enxergar de outra forma.
  • criado por Bob Fernandes criado por Bob Fernandes

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