Desembarcou, direto de Londres, o Renato Schulman. Como em outras copas, com sua bandeira. Num desses mundiais, encontro de homens das finanças, como ele, bancado por um dos patrocinadores. Alguém pede a palavra:
-Queria contar uma coisa...
Platéia seleta, poucos se conheciam entre si, ficou aquele clima; vai que o cara resolveu sair do armário justo ali, horas antes do jogo. O cara foi em frente:
-Hoje o Brasil joga, quase uma decisão... e isso me faz recordar um dia muito importante na minha vida...
Expectativa. Silêncio. Constrangimento.
-Vocês se lembram da maior, da mais bela defesa que um goleiro já fez em uma Copa do Mundo?
Os que estavam vivos e atentos à bola em 70 balançaram a cabeça, sim, nós nos lembramos.
-...o Jairzinho arrancou pela direita, cruzou, o Pelé subiu e ficou lá no ar; até hoje não sei como ele conseguia fazer aquilo, subir e ficar parado por alguns milésimos, esperando a bola, pois quando a bola chegou ele testou, forte, para o chão, indefensável...eu vi, todos vimos a bola dentro, eu vi o gol...
Silêncio. Expectativa. Mas a platéia já relaxada, não era armário, alguma coisa assim. Era só um doido que resolveu subir no palco. E continuava lá:
-...mas aí o Gordon Banks, o goleiro da Inglaterra, deu um salto para a direita, coisa de frações de segundo, e quando estava no ar esticou a mão direita e deu um tapa na bola, que estava quase dentro, para mim já era um gol feito... uma coisa simplesmente impossível aquela defesa.
Sim, ô maluco, mas e aí, e nóis com isso? , pensou o Renato, doido para se arrancar para o estádio.
-...até hoje me arrepio quando penso nesse lance. É uma coisa que eu nunca, até a minha morte, vou esquecer...
Silêncio. Expectativa. Já alguma irritação, ele conclui:
-...eu era o lateral esquerdo da Inglaterra, o homem que marcava o Jairzinho, nunca na minha vida eu vou esquecer esse lance, esse jogo...
Pensem nisso, rapazes, vocês que trafegam no ônibus verde dos amarelos, que tem gravada na janela lateral a frase "Veículo monitorado por 180 milhões de corações brasileiros".
Frase no outdoor de patrocinadores que é o buso da armata verde-amarela.
Parênteses. Para quem tem perguntado se “amarelos” é desprezo. Não. Nunca. É uma homenagem.
Quase todo mundo que está aqui se veste de amarelo, em homenagem à seleção. E muitos nos chamam assim, os “yellows”. Como os italianos säo a Azzurra, os “azuis”, e os uruguaios “a celeste”.
Penso no lateral inglês, cujo nome não recordo.
Penso no lateral que a história engoliu e no que, daqui a poucos anos, terão guardado do dia de hoje os rapazes que fizeram 3 x 0 em Gana no estádio de Dortmund.
criado por
Bob Fernandes