Desembarcou, direto de Londres, o Renato Schulman. Como em outras copas, com sua bandeira. Num desses mundiais, encontro de homens das finanças, como ele, bancado por um dos patrocinadores. Alguém pede a palavra:
-Queria contar uma coisa...
Platéia seleta, poucos se conheciam entre si, ficou aquele clima; vai que o cara resolveu sair do armário justo ali, horas antes do jogo. O cara foi em frente:
-Hoje o Brasil joga, quase uma decisão... e isso me faz recordar um dia muito importante na minha vida...
Expectativa. Silêncio. Constrangimento.
-Vocês se lembram da maior, da mais bela defesa que um goleiro já fez em uma Copa do Mundo?
Os que estavam vivos e atentos à bola em 70 balançaram a cabeça, sim, nós nos lembramos.
-...o Jairzinho arrancou pela direita, cruzou, o Pelé subiu e ficou lá no ar; até hoje não sei como ele conseguia fazer aquilo, subir e ficar parado por alguns milésimos, esperando a bola, pois quando a bola chegou ele testou, forte, para o chão, indefensável...eu vi, todos vimos a bola dentro, eu vi o gol...
Silêncio. Expectativa. Mas a platéia já relaxada, não era armário, alguma coisa assim. Era só um doido que resolveu subir no palco. E continuava lá:
-...mas aí o Gordon Banks, o goleiro da Inglaterra, deu um salto para a direita, coisa de frações de segundo, e quando estava no ar esticou a mão direita e deu um tapa na bola, que estava quase dentro, para mim já era um gol feito... uma coisa simplesmente impossível aquela defesa.
Sim, ô maluco, mas e aí, e nóis com isso? , pensou o Renato, doido para se arrancar para o estádio.
-...até hoje me arrepio quando penso nesse lance. É uma coisa que eu nunca, até a minha morte, vou esquecer...
Silêncio. Expectativa. Já alguma irritação, ele conclui:
-...eu era o lateral esquerdo da Inglaterra, o homem que marcava o Jairzinho, nunca na minha vida eu vou esquecer esse lance, esse jogo...
Pensem nisso, rapazes, vocês que trafegam no ônibus verde dos amarelos, que tem gravada na janela lateral a frase "Veículo monitorado por 180 milhões de corações brasileiros".
Frase no outdoor de patrocinadores que é o buso da armata verde-amarela.
Parênteses. Para quem tem perguntado se “amarelos” é desprezo. Não. Nunca. É uma homenagem.
Quase todo mundo que está aqui se veste de amarelo, em homenagem à seleção. E muitos nos chamam assim, os “yellows”. Como os italianos säo a Azzurra, os “azuis”, e os uruguaios “a celeste”.
Penso no lateral inglês, cujo nome não recordo.
Penso no lateral que a história engoliu e no que, daqui a poucos anos, terão guardado do dia de hoje os rapazes que fizeram 3 x 0 em Gana no estádio de Dortmund.
Início da tarde, muito calor. O bosque que cerca o Castelo de Lerbach é algo para a literatura. Não por acaso Parreira quer esticar a estadia por mais dois dias, ficar até a quinta 29, se a seleção amarela bater os ganos.
Parreira, desde o ano passado, se apaixonou por Lerbach. O silêncio é absoluto, a mata é espessa, bem cuidada, e em frente ao casarão o lago empresta o toque final ao bucolismo do cenário.
Quem se hospeda aqui está obrigado a fazer melhor o que tem a fazer, seja o que for.
Ronaldo, sentado numa cadeira no meio do gramado, aparenta tentar dar o melhor de si. Tenta, mas deixa visível sua impaciência. Dezoito gravadores, e seus donos, o cercam. As perguntas sucedem-se, por cinco, dez, quinze minutos, até o final de cada bateria.
Primeiro entrevistam os de rádio e internet. Quando saem estes, vêm os meios impressos, depois a televisão. Escalados para a batalha estão, além de Ronaldo, Juan, Roberto Carlos e Emerson.
De calção, camiseta e tênis, Ronaldo tem nas mãos a chave do seu quarto. Responde no automático enquanto abre e fecha o encaixe que prende a chave à correia no pescoço.
-Tlec, tlec, tlec, tlec...
A menos de 10 metros, esparrachado no gramado, enorme, um cisne branco.
Monocórdio, treinadíssimo nesse jogo, Ronaldo rebate, uma a uma, as perguntas. Rosto sério, sem um sorriso, faz de conta que esconde enquanto deixa à mostra a impaciência. Uma impaciência estudada. Aprendida e apreendida.
Faz lembrar, muito, o Romário de 94. Não lembra, em quase nada, o Ronaldinho, menino alegre e saltitante de 94, o apreensivo, mas ainda não na defensiva, Ronaldo de 98. Ele tem suas razões para tanto.
Sabe que cada pergunta pode conter uma armadilha. Quando pressente o perigo, seja real ou imaginário, dá de bico:
-...isso é impressão sua...você é quem tá falando... essa análise é você quem faz...essa é a sua opinião...meu peso é algo que só interessa a mim e a mais ninguém...
(Ronaldo, percebe-se, não tem gordura aparente no corpo).
É um jogo de gestos. E os gestos dizem tudo. Emerson está de pé, permanece de pé por todo o tempo, e fala para meia dúzia de repórteres. Juan, nesse instante, para uns quatro ou cinco, sempre de pé. Roberto Carlos, mais uma meia dúzia, de pé.
Outros três ou quatro cercam a roda que já cerca Ronaldo. Todos, homens feitos. Pais, um ou outro já avô. Com os braços esticados para baixo, a olhar para baixo, a dirigir suas perguntas para baixo, a empunhar gravadores voltados para baixo, para o rapaz de 29 anos. ...cinco, dez, quinze minutos... E ele, Ronaldo, sentado. Sem olhar para cima, sem olhar para ninguém enquanto responde:
-...não me interessa se quem vai ganhar é a Alemanha ou a Argentina, o que me interessa é o Brasil...
-...O Adriano chateado? Não tem ninguém chateado, estamos todos unidos, uns ajudando aos outros, só pensamos em vencer a Copa do Mundo...
-...o Brasil não tem que se preocupar com ninguém, os adversários é que têm que se preocupar com o Brasil..
Luis Antônio Prósperi, do Jornal da Tarde, pergunta:
-Você fica chateado pelo fato do Brasil, você, serem questionados o tempo todo, terem que provar quem são o tempo todo?
-Já estou acostumado. Minha vida tem sido provar isso o tempo todo...
Outra pergunta:
-Ronaldo, você se queixa da imprensa, mas quase todos ex-jogadores que se tornam analistas, cronistas, terminam por fazer críticas da mesma forma. E não só no Brasil. Há quarenta dias o Klinsmann, da Alemanha, era um idiota, hoje é um semi-deus...
Alguns poucos segundos de reflexão:
-Bem, eu não sei quais são os critérios que vocês jornalistas usam, cada um faz seu trabalho...
E o fecho da chave:
-Tlec, tlec, tlec,tlec...
A cicatriz na parte posterior do joelho direito é impressionante. As perguntas se sucedem. E as respostas, sempre monocórdias:
-Estamos unidos para ganhar a Copa...
Os jornalistas se rendem, pouco a pouco. Dali não vai sair mais nada. Fim da conversa formal. Quase todos se afastam. Ficam uns três ou quatro, nos quais ele certamente confia, pelo menos um pouco mais.
Ronaldo relaxa, sorri. Sentado. Esparramado na cadeira no meio do gramado do Castelo Lerbach.
A conversa, conversa de homens, sem gravadores, agora flui. Ronaldo gargalha.
Emerson, ameaçado, cada vez mais, pelo futebol de Gilberto Silva, segue em pé. Explica, responde, fala. Sobre ele, sobre a entrada ou não de Gilberto Silva em seu lugar. Sobre Gana.
Os cabelos, já rarefeitos na porção superior dianteira, penteados na direção onde escasseiam.
Será a luz, a proximidade, o resultado do abaixar-se um pouco para chegar aos gravadores, ou Emerson está um pouco mais corcunda?
Ronaldo segue sentado, ainda mais largado na cadeira. A mão direita escorrega pelo calção, se coça, num gesto absolutamente masculino. Alguns repórteres seguem a cercá-lo, sempre a olhar para baixo.
Ronaldo não olha para cima, busca o gramado, o lago à sua frente – o cisne segue deitado a 10 passos, agora de olhos postos na sua imagem refletida na água -, comenta:
-...quem vai jogar comigo, eu não sei, o que eu quero é estar lá....gol duzentos na Copa? Legal, se vier, é mais uma estatística... mas o que eu quero é ganhar o jogo, a Copa...
Juan segue de pé. Brinco prateado e uma jóia incrustada no lóbulo da orelha esquerda. Juan, se não o melhor, o mais regular jogador amarelo na Copa, o homem que joga de fraque e cartola, atende a dois jornalistas:
-Você não falava nada, está falando mais agora...
Ele, que joga e mora na Alemanha, responde, com sua língua presa:
-A gente vai vivendo, fica mais velho...e também estamos há muito tempo sem conversar com quase ninguém, só entre nós...e ainda mais na nossa língua, em português...
Roberto Carlos. Em pé, a sorrir. De quando em quando, em campo, o lateral parece se desligar da importância, aparenta estar a disputar um Olaria x Bangu quando está é numa Copa do Mundo. Agora fala sobre Robinho, o grande assunto, a incógnita, o mistério do dia.
A ressonância magnética é no dia seguinte. Pouco depois da conversa no castelo, o médico, Runco, diria não ser possível ainda fazer previsões. Roberto, pela sem cerimônia em campo, nas entrevistas, dá pistas de não ter completamente estruturado o superego.
A auto-censura é pouca, quase nenhuma. O lateral dispara, entrega:
-Conversei com o Robinho, ele me disse que não vai dar para jogar...
Quando, em quase todas as noites de Bergisch Gladbach, faz dali o Jornal Nacional, Fátima Bernardes ouve o grasnar de um pato. Já até alertou seus telespectadores sobre a existência do pato, dos patos, daquele ruído ao fundo.
Fim das entrevistas.
Ronaldo, segue sentado em sua cadeira. Esparramado. Aguarda a próxima horda. Agora, a da televisão. Com o fecho da chave nas mãos:
-Tlec, tlec, tlec...
Os repórteres, essa fornada, se vão. Passam pela beira do lago. Pelo cisne, enorme, interminável, branco. Um repórter se aproxima, aponta a lente, fotografa. O cisne o encara, de baixo para cima, e, monocórdio:
- Croac, croac, croac...
Um fenômeno, um fenômeno. Mesmo sem estar em campo, Ronaldo acaba de superar o mito, o Rei, Pelé. O placar informa que terminou o primeiro tempo e o gol teria sido dele. Deve ser um engano.
Faltavam algumas horas para o jogo e eu ouvi. Melhor, a Letícia e a Luana, 10 e 8 anos, amores da minha vida, indagaram, quase em desespero:
-Pai, o Ronaldo não vai jogar. Deu na Globo. É porque ele comeu muito?
Não, filhas, não. Mas se a Globo deu, a gente não discute.
Me lembrei de 98. Letícia tinha 2 anos, Luana nasceria durante a Copa. Estava dormindo, depois de uma noitada na redação, quando a Le entrou esbaforida no quarto:
-Pai, pai, coltalam o Lomálio, coltalam o Lomálio, falô na tevelisão...
Difícil explicar que o Romário não sangraria com aquele corte. (Pelo menos por fora).
A bombástica informação dessa Copa 2006 aterrissa no centro de mídia – isenta, imparcial e objetiva, como sabemos. Todos, quase todos, embarcam: Ronaldo no banco contra os japônios.
Pululam teorias, teses, confirmadíssimas, do porquê. Uma explanação sobre calorias é a dominante.
Moraci Santana, na véspera, divulgara um dos segredos mais bem guardados da República: o peso do Ronaldo. Noventa quilos e meio. Cinco a menos do que quando desembarcou na Suíça.
Ronaldo teria ficado furioso, cobrado Moraci, e ido parar no banco, é a informação que prevalece.
Toninho e a armata do Terra se entreolham. Digo ao Prada:
-Se a Globo deu, deu. São as tábuas da lei...
Ele e os rapazes, Wanderlei Nogueira junto, concluem:
-É fria.
E não embarcam.
Intervalo. Encontro a rapaziada e comento:
-Um fenômeno, um fenômeno. Mesmo ser estar em campo o cara marca.
Prósperi e toda a turma do Jornal da tarde, vários se juntam:
-Não pira, cara. É ele...
Resisto:
-Imagina! Deu na Globo. E o gol ainda foi de cabeça! Sem chance. Deve ser o Adriano, o Luisão... e eu vi! E eu li. Juro que li.
Foi enorme a quantidade de matérias sobre a ausência do Ronaldo no jogo, li algumas aqui no templo da objetividade, já quase prontas quando ainda faltava uma hora para a partida!
Toca o telefone:
-Pai?
-Sim, filha...
-Gostou do gol do Ronaldo?
Pois é, filhas. São coisas que acontecem, são coisas do futebol. Todos erramos. Até o papai, imaginem, erra. Aliás, ele errou logo na estréia.
Rádio Jornal do Brasil, Salvador, entrando no ar naquele dia e hora. Pergunto ao Frei:
-O senhor poderia falar um pouco sobre a morte de Dom Timóteo?
-Posso, filho, só que quem morreu não fui eu, foi Dom Jerônimo.
E não é que era o Ronaldo? Pedaladas, dois gols, ia fazendo um terceiro para a história das Copas, aquele do taquito do Gaúcho.
Na véspera, na zona de entrevistas, eu o vira passar, uma garrafa de Coca na mão esquerda, já pela metade. Não era light. Indaguei-me:
-Será que é chá preto?
O jogo acabou. Quatro a um contra os japônios, fora o baile. Ronaldo, o melhor em campo.
Encontro, aqui no centro da imparcialidade, muitos com quem falei antes, com quem tenho falado nestes dias de debate mundial sobre as calorias do Ronaldo
Vários são gringos.
Os mesmos que me entrevistaram sobre a coca preta, a existência ou não dos nuggets na dieta. Pergunto a uns e outros:
-Amigo, há publicado las notícias sobre el gordo?... Hi, are you publish your article about the fat?… Ciao, bella, e Ronaldo, sei grasso?
Estão todos com pressa, muita pressa. Uns quatro fazem grande esforço para não me enxergar. Corro ao Google. Ele está nas capas do mundo:
-Ronaldo quebra o recorde de Pelé em Copas do Mundo (Globe and mail, USA).
-Gordo de Alegria.(Olé, Argentina)
-O renascimento de Ronaldo. (Sport, Itália.)
-Ronaldo iguala o recorde de Müller.(Agência Ansa, Itália).
-Ronaldo iguala Müller.(Nouvele Observateur, França.)
-Ronaldo renasce. (Site da UEFA)
-Ronaldo, cada vez melhor.(L ‘Equipe, França.)
-Ronaldo entra para a história. (France Football)
A solidariedade é uma coisa comovente. Relatei aqui ontem, em rápidas pinceladas, o pungente drama dos sem teto na Alemanha -entre o quais, eventualmente, me incluo. Foi que bastou.
Choveram mensagens com ofertas de ajuda. Permitam-me discorrer um pouco mais sobre a marcha dos eventos. Desde o domingo último, por exemplo.
Hotel Kempinski, Munique. Café da manhã. Salão coalhado de garçonetes lourinhas, com ou sem piercing. Um amigo comenta, de passagem:
-Eu me casaria, hoje, com qualquer uma delas...
Dê-se um desconto. A rapaziada, já há 40 dias, convive all the time com o Lúcio, o Adriano, o Ronaldo Gaúcho, o Luisão, o Américo Faria (parece que agora ele acertou a tinta)...
Para quem não aprecia toda essa virilidade, e me parece ser o caso quase generalizado por aqui, fica difícil. Donde uma garçonete que não trate a pontapés seres com olhares de pedinte será, de imediato, elevada à condição de musa.
Quando me vi no Kempinski, naquele café da manhã, pensei na condição humana. Na gangorra que é a vida.
O Kempinski de Munique, para que não o conhece, fica entre a Bulgari e a Bali, defronte à Chanel e a Dior, numa avenida onde quem tem menos de três milhões de euros só passa cabisbaixo. E de madrugada.
Sendo notórias minhas ligações com a Bahia e seus deuses, alguém que deveria ficar no Kempinski não ficou -parece que optou por um trailler - e assim, por decisão do magnânimo Toninho Prada, eis-me.
Luxo. Glamour. Piano. Champanhe. E eu a pensar no como havia sido aquele albergue em Berlim, abarrotado de croatos bêbados, e no como seria o dia seguinte.
Relatei aqui, ontem, os dias seguintes.
Eu e dois amigos, o Guga e o Bernardo, rodamos meia Alemanha em busca de uma vaga num hotel. Nada. Está pior que vaga no time amarelo. Ninguém quer sair, todo mundo quer entrar.
De repente, a solidariedade. A Cila, prima querida, informa que uma amiga em Colônia pode, de alguma forma, socorrer os sem teto. Talvez necessitemos.
Estamos, outra vez provisoriamente, num hotel. O Steigenberger. Ao meio-dia daqui, Dortmund, estaremos novamente na rua. Faltam duas horas. Uma corrida. Contra vários relógios. E o Guga tá uma arara.
Explico. Só tinha uma suíte júnior, três camas. Custou, dividido por três, mais da metade da grana dos rapazes, mas era isso ou o banco da praça. Só que a tela do laptop quebrou e aí, um técnico. Em alemão.
Daí o Guga estar uma arara. Ele, enfiado debaixo do estrado da cama para ver se escapa daquela horrenda claridade de uma manhã de verão europeu. Mas tendo que escutar.
Escutar a mim e Herr Bernd. Eu e ele com um inglês pessoal e intransferível, o de ambos, e a tentar entender, com tanto inglês, qual foi a rebimboca da parafuseta que se partiu na queda e apagou a tela.
Não sei se tento captar algo no quase-inglês germânico de Herr Bernd ou se busco compreender o que se passou com a tela. No fundo apenas um exercício de vida, já que seguirei a trafegar nas trevas em ambos os casos.
-Nein, nein it's nein rebimboca- explica Herr Bernd.
-Grumm...po....sono....Uhhhaaa....que caral... - o Guga protesta. Com razão. Ele não dorme há umas 48 horas.
-Nein, nein, it's impossible, not parafuseta- insiste Bernd.
-Esquece essa disgraça e me deixa dormir - brada Guga, lá de debaixo do estrado.
Bernd arregala os olhos ante aquela voz que parece brotar do chão do quarto.
-It's rebimboca? It's parafuseta?
-Não, não, é só o Guga que tá com sono.
-Guga?
-Forget, forget, esqueça, Herr Bernd.
Bernardo volta do café. Ele é do tamanho do Adriano, embora mais magro. Ontem bateu quatro pratos de salada no bufê, um gaspacho e uma lasanha. Quando saiu do café da manhã, há pouco, a alemoa trancou o restaurante.
-Como tá a coisa aí? -pergunta o Bernardo ao entrar no quarto, voz de barítono.
Herr Bernd jamais entenderá. Aquele estranho calçado construído por uma sola e duas tiras em verde e amarelo. Primeiro o pé esquerdo. Passou por entre Bernardo e Herr e bateu na cara da Marilyn.
Sim, a Monroe. O quarto, como todo o hotel, é inspirado em Hollywood e seus astros e estrelas. Marilyn Monroe e Billy Wilder, no pôster de Some Like it Hot, receberam a primeira chinelada.
-Tá com sono, Guga?- pergunta Bernardo, o barítono.
-It's havaiana - explico o calçado a Herr Bernd.
Herr Bernd, rápido, dá dois passos para o lado, a tempo de ver o pé direito do estranho calçado vazar pela cortina que divide os dois lados da suíte e acertar a orelha de Bogart, em Casablanca.
Rápido, Herr Bernd. Abaixa-se, cata a sandália e aponta para o calçado:
-It's havaiana!
Em seguida, espeta o indicador direito em direção aos aposentos e define:
-It's Guga...
-Que por....car....sono...dormir... a .....da mãe desse alemão....pega esse computador... - o berro sacode o quarto.
-What is enfia?
-Forget, forget, esqueça, Herr Bernd.
Bem, Herr Bernd levou meu computador. Ligaremos em três horas. Para saber se daqui por diante terei que mendigar bites alheios, como estes de agora, ou me valerei de sinais de fumaça, ou o terei de volta.
O jogo contra os japônios é às nove, daqui.
Faltam 15 minutos para vencer a diária. As malas estão no quarto, inclusive a pasta de Herr Bernd, que balbuciava enquanto nos atropelávamos escada abaixo:
-After, after my pasta...
Depois ele pega a pasta.
Estava tudo indo bem. Herr Bernd com sua chavinha de fenda, a procurar a rebimboca e a parafuseta. Eu e o barítono Bernardo a respirar, a sorver e expelir pela boca e, assim, a evitar o ruído provocado pela fricção do ar com as narinas. Até que, de repente.
Primeiro, o destravar:
-Tlec.
Quando a fechadura se abriu, Herr Bernd, de um salto, já estava à porta. Não pôde sair antes porque Fraulein Helga ocupava todo o espaço. (Sabem aquele freezer, o mais largo?)
Fraulein Helga é soprano. Soube assim que ela acabou de destrancar a porta e, a plenos pulmões, comunicou:
- House keeping...Good morning!!!
Foi um ato quase conjugado. A frase veio um pouco antes:
-CAR....PO.... E AGORA?...DEPOIS DESSE..... DA......DESSE ...ALEMÃO....VEM ESSA......?
Eu tropeçava no Bernardo escadas abaixo quando ouvi Herr Bernd, resfolegando, perguntar...
-....is VACA?
Fraulein conta que o tênis bateu na boca na Jane Russel - Os homens preferem as loiras (não é verdade!). E que o quadro com o pôster caiu.
Venceu a diária. Mas eu e o Bernardo, na portaria, não resolvemos nem no par ou ímpar. Deu empate. O Guga ainda está lá.
A Fraulein disse não à nossa idéia dela entrar sorrateiramente e retirar as malas. O jovem gerente diz que não é com ele. Herr Bernd acaba de ligar.
Ainda não sabe do computador. Informado da seqüência, pediu para deixar a pasta na portaria do Steigenberger -quando for possível. E insistiu na questão:
-What is VACA?
Ninguém quer sair, e todos querem entrar.
Se na seleção amarela o problema de vagas cresce na véspera da partida contra os japônios, nos hotéis de meia Alemanha o problema já foi resolvido. Não há vaga alguma.
Nos ajoelhamos aqui num saguão de hotel em Dortmund para conseguir dormir umas poucas horas.
É meio-dia e esmurram a porta do meu quarto. Daqui só sairei quando acabar estas linhas. Entramos às quatro da madrugada, depois de rodar dois dias.. Em Stuttgart encontramos a festa dos espanhóis depois do sufoco contra a Tunísia.
Na Schlossplatz, mais de 10 mil espanhóis. Em fúria depois dos 3 a 1. Berros, apitos, cornetas com o toque de chamar o touro, mas, como de hábito, nem um único acorde musical. Melhor, há um único.
Gerard, um alemão. Numa praça enorme, entupida pela rapaziada da Espanha, Alemanha e Tunísia, apenas o Gerard toca alguma coisa.
Tivesse ele um papagaio pendurado no ombro ou na maquinola, seria um realejo. Como não tem, e nem tira a sorte, é uma pequena harmônica. O único toque musical na festa espanhola.
E nenhuma vaga em hotel algum.
Colônia. Cinqüenta mil ingleses despencam aqui para ver Inglaterra e Suécia. No mesmo dia em que os alemães comemoram os 3 a 0 no Equador. Acaba um jogo, começa o outro.
Quando saímos, os ingleses deixam o estádio, em direção aos alemães amontoados na praça da catedral. Garrafas voam, as turbas rugem, o couro já come. Nós, de mala e cuia às costas, e ainda mais moreninhos no verão europeu, entendemos não ser prudente tentar assistir à briga dos brancos sem ter camarote.
Não há uma única vaga em hotéis de Colônia ou região.
Leverkusen. Vocês conhecem Pinhalzinho e Socorro, ali no interior de São Paulo, perto da estação das águas? Pois são prósperas urbes com mais ou menos a mesma dinamicidade de Leverkusen.
A cidade fica próxima a onde estão hospedados nossos heróis. Eles, num castelo. Nós? Não há uma única vaga, nem mesmo em albergues, em Leverkusen.
Dortmund, onde é o jogo de amanhã. Havia essa cama das quatro da madrugada ao meio-dia. Barrico a porta com a mala enquanto termino estas linhas. Meus companheiros nesta etapa da viagem devem ter dormido no banco da praça.
Tentei ajudá-los, mas os rapazes declinaram, já estão acostumados às dificuldades da vida. O Guga e o Bernardo. O Guga conheço desde que nasceu. O pai enviou-os, o Guga e o fotógrafo e amigo Bernardo, para cobrirem a Copa.
-Vão lá, entrevistem uma freirinha que nunca viu uma partida de futebol na vida.- essa foi a pauta para os meninos, que rodaram meia Alemanha em busca da freirinha, e longe, muito longe, o mais longe possível, da seleção amarela.
Não acharam a freirinha, e o Guga ainda tomou um murro – de raspão, de raspão, só lascou um pouquinho o siso –de um segurança ao tentar, em Berlim, entrevistar para o blog paterno umas moças que ganham a vida de maneira heterodoxa.
Além de não encontrarem a freirinha e, muito aquém do convento, quase apanharem de um alemão enorme, os rapazes estão numa pindaíba de fazer dó.
O Noblat (sim, o blog é o dele) deu uns trocos para os rapazes e disse:
-Os preços são mais ou menos iguais aos de Sobradinho e da Ceilândia, vão tranqüilos que com isso vai dar...
O Guga bebe água das torneiras e o dia inteiro engole pão com aquelas salsichas intermináveis.
O Bernardo se cuida melhor. Além da mesma água torneiral alimenta-se com uma parcela dos aspargos e morangos que colhe no intervalo das 73 fotos que manda para o blog diariamente.
(Manda pelo meu computador, claro.)
O chefe deles falou:
-Vão tranqüilos que a Europa é uma teta. Tem internet, wireless, em cada esquina.