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Arquivo de: Junho 2006

22.06.06

Ainda não há vagas, o laptop quebrou e o sono mata

A solidariedade é uma coisa comovente. Relatei aqui ontem, em rápidas pinceladas, o pungente drama dos sem teto na Alemanha -entre o quais, eventualmente, me incluo. Foi que bastou.


Choveram mensagens com ofertas de ajuda. Permitam-me discorrer um pouco mais sobre a marcha dos eventos. Desde o domingo último, por exemplo.


Hotel Kempinski, Munique. Café da manhã. Salão coalhado de garçonetes lourinhas, com ou sem piercing. Um amigo comenta, de passagem:


-Eu me casaria, hoje, com qualquer uma delas...

Dê-se um desconto. A rapaziada, já há 40 dias, convive all the time com o Lúcio, o Adriano, o Ronaldo Gaúcho, o Luisão, o Américo Faria (parece que agora ele acertou a tinta)...

Para quem não aprecia toda essa virilidade, e me parece ser o caso quase generalizado por aqui, fica difícil. Donde uma garçonete que não trate a pontapés seres com olhares de pedinte será, de imediato, elevada à condição de musa.

Quando me vi no Kempinski, naquele café da manhã, pensei na condição humana. Na gangorra que é a vida.

O Kempinski de Munique, para que não o conhece, fica entre a Bulgari e a Bali, defronte à Chanel e a Dior, numa avenida onde quem tem menos de três milhões de euros só passa cabisbaixo. E de madrugada.

Sendo notórias minhas ligações com a Bahia e seus deuses, alguém que deveria ficar no Kempinski não ficou -parece que optou por um trailler - e assim, por decisão do magnânimo Toninho Prada, eis-me.

Luxo. Glamour. Piano. Champanhe. E eu a pensar no como havia sido aquele albergue em Berlim, abarrotado de croatos bêbados, e no como seria o dia seguinte.

Relatei aqui, ontem, os dias seguintes.

Eu e dois amigos, o Guga e o Bernardo, rodamos meia Alemanha em busca de uma vaga num hotel. Nada. Está pior que vaga no time amarelo. Ninguém quer sair, todo mundo quer entrar.

De repente, a solidariedade. A Cila, prima querida, informa que uma amiga em Colônia pode, de alguma forma, socorrer os sem teto. Talvez necessitemos.

Estamos, outra vez provisoriamente, num hotel. O Steigenberger. Ao meio-dia daqui, Dortmund, estaremos novamente na rua. Faltam duas horas. Uma corrida. Contra vários relógios. E o Guga tá uma arara.

Explico. Só tinha uma suíte júnior, três camas. Custou, dividido por três, mais da metade da grana dos rapazes, mas era isso ou o banco da praça. Só que a tela do laptop quebrou e aí, um técnico. Em alemão.

Daí o Guga estar uma arara. Ele, enfiado debaixo do estrado da cama para ver se escapa daquela horrenda claridade de uma manhã de verão europeu. Mas tendo que escutar.

Escutar a mim e Herr Bernd. Eu e ele com um inglês pessoal e intransferível, o de ambos, e a tentar entender, com tanto inglês, qual foi a rebimboca da parafuseta que se partiu na queda e apagou a tela.

Não sei se tento captar algo no quase-inglês germânico de Herr Bernd ou se busco compreender o que se passou com a tela. No fundo apenas um exercício de vida, já que seguirei a trafegar nas trevas em ambos os casos.

-Nein, nein it's nein rebimboca- explica Herr Bernd.

-Grumm...po....sono....Uhhhaaa....que caral... - o Guga protesta. Com razão. Ele não dorme há umas 48 horas.

-Nein, nein, it's impossible, not parafuseta- insiste Bernd.

-Esquece essa disgraça e me deixa dormir - brada Guga, lá de debaixo do estrado.

Bernd arregala os olhos ante aquela voz que parece brotar do chão do quarto.

-It's rebimboca? It's parafuseta?

-Não, não, é só o Guga que tá com sono.

-Guga?

-Forget, forget, esqueça, Herr Bernd.

Bernardo volta do café. Ele é do tamanho do Adriano, embora mais magro. Ontem bateu quatro pratos de salada no bufê, um gaspacho e uma lasanha. Quando saiu do café da manhã, há pouco, a alemoa trancou o restaurante.

-Como tá a coisa aí? -pergunta o Bernardo ao entrar no quarto, voz de barítono.

Herr Bernd jamais entenderá. Aquele estranho calçado construído por uma sola e duas tiras em verde e amarelo. Primeiro o pé esquerdo. Passou por entre Bernardo e Herr e bateu na cara da Marilyn.

Sim, a Monroe. O quarto, como todo o hotel, é inspirado em Hollywood e seus astros e estrelas. Marilyn Monroe e Billy Wilder, no pôster de Some Like it Hot, receberam a primeira chinelada.

-Tá com sono, Guga?- pergunta Bernardo, o barítono.

-It's havaiana - explico o calçado a Herr Bernd.

Herr Bernd, rápido, dá dois passos para o lado, a tempo de ver o pé direito do estranho calçado vazar pela cortina que divide os dois lados da suíte e acertar a orelha de Bogart, em Casablanca.

Rápido, Herr Bernd. Abaixa-se, cata a sandália e aponta para o calçado:

-It's havaiana!

Em seguida, espeta o indicador direito em direção aos aposentos e define:

-It's Guga...

-Que por....car....sono...dormir... a .....da mãe desse alemão....pega esse computador... - o berro sacode o quarto.

-What is enfia?

-Forget, forget, esqueça, Herr Bernd.

Bem, Herr Bernd levou meu computador. Ligaremos em três horas. Para saber se daqui por diante terei que mendigar bites alheios, como estes de agora, ou me valerei de sinais de fumaça, ou o terei de volta.

O jogo contra os japônios é às nove, daqui.

Faltam 15 minutos para vencer a diária. As malas estão no quarto, inclusive a pasta de Herr Bernd, que balbuciava enquanto nos atropelávamos escada abaixo:

-After, after my pasta...

Depois ele pega a pasta.

Estava tudo indo bem. Herr Bernd com sua chavinha de fenda, a procurar a rebimboca e a parafuseta. Eu e o barítono Bernardo a respirar, a sorver e expelir pela boca e, assim, a evitar o ruído provocado pela fricção do ar com as narinas. Até que, de repente.

Primeiro, o destravar:

-Tlec.

Quando a fechadura se abriu, Herr Bernd, de um salto, já estava à porta. Não pôde sair antes porque Fraulein Helga ocupava todo o espaço. (Sabem aquele freezer, o mais largo?)

Fraulein Helga é soprano. Soube assim que ela acabou de destrancar a porta e, a plenos pulmões, comunicou:

- House keeping...Good morning!!!

Foi um ato quase conjugado. A frase veio um pouco antes:

-CAR....PO.... E AGORA?...DEPOIS DESSE..... DA......DESSE ...ALEMÃO....VEM ESSA......?

Eu tropeçava no Bernardo escadas abaixo quando ouvi Herr Bernd, resfolegando, perguntar...

-....is VACA?

Fraulein conta que o tênis bateu na boca na Jane Russel - Os homens preferem as loiras (não é verdade!). E que o quadro com o pôster caiu.
Venceu a diária. Mas eu e o Bernardo, na portaria, não resolvemos nem no par ou ímpar. Deu empate. O Guga ainda está lá.

A Fraulein disse não à nossa idéia dela entrar sorrateiramente e retirar as malas. O jovem gerente diz que não é com ele. Herr Bernd acaba de ligar.
Ainda não sabe do computador. Informado da seqüência, pediu para deixar a pasta na portaria do Steigenberger -quando for possível. E insistiu na questão:

-What is VACA?

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21.06.06

Não há vagas. A rapaziada dorme ao relento


 Foto: Bernardo Rebello

Ninguém quer sair, e todos querem entrar.

Se na seleção amarela o problema de vagas cresce na véspera da partida contra os japônios, nos hotéis de meia Alemanha o problema já foi resolvido. Não há vaga alguma.

Nos ajoelhamos aqui num saguão de hotel em Dortmund para conseguir dormir umas poucas horas.

É meio-dia e esmurram a porta do meu quarto. Daqui só sairei quando acabar estas linhas. Entramos às quatro da madrugada, depois de rodar dois dias.. Em Stuttgart encontramos a festa dos espanhóis depois do sufoco contra a Tunísia.

Na Schlossplatz, mais de 10 mil espanhóis. Em fúria depois dos 3 a 1. Berros, apitos, cornetas com o toque de chamar o touro, mas, como de hábito, nem um único acorde musical. Melhor, há um único.

Gerard, um alemão. Numa praça enorme, entupida pela rapaziada da Espanha, Alemanha e Tunísia, apenas o Gerard toca alguma coisa.
Tivesse ele um papagaio pendurado no ombro ou na maquinola, seria um realejo. Como não tem, e nem tira a sorte, é uma pequena harmônica. O único toque musical na festa espanhola.

E nenhuma vaga em hotel algum.

Colônia. Cinqüenta mil ingleses despencam aqui para ver Inglaterra e Suécia. No mesmo dia em que os alemães comemoram os 3 a 0 no Equador. Acaba um jogo, começa o outro.

Quando saímos, os ingleses deixam o estádio, em direção aos alemães amontoados na praça da catedral. Garrafas voam, as turbas rugem, o couro já come. Nós, de mala e cuia às costas, e ainda mais moreninhos no verão europeu, entendemos não ser prudente tentar assistir à briga dos brancos sem ter camarote.

Não há uma única vaga em hotéis de Colônia ou região.

Leverkusen. Vocês conhecem Pinhalzinho e Socorro, ali no interior de São Paulo, perto da estação das águas? Pois são prósperas urbes com mais ou menos a mesma dinamicidade de Leverkusen.

A cidade fica próxima a onde estão hospedados nossos heróis. Eles, num castelo. Nós? Não há uma única vaga, nem mesmo em albergues, em Leverkusen.

Dortmund, onde é o jogo de amanhã. Havia essa cama das quatro da madrugada ao meio-dia. Barrico a porta com a mala enquanto termino estas linhas. Meus companheiros nesta etapa da viagem devem ter dormido no banco da praça.

Tentei ajudá-los, mas os rapazes declinaram, já estão acostumados às dificuldades da vida. O Guga e o Bernardo. O Guga conheço desde que nasceu. O pai enviou-os, o Guga e o fotógrafo e amigo Bernardo, para cobrirem a Copa.

-Vão lá, entrevistem uma freirinha que nunca viu uma partida de futebol na vida.- essa foi a pauta para os meninos, que rodaram meia Alemanha em busca da freirinha, e longe, muito longe, o mais longe possível, da seleção amarela.


Não acharam a freirinha, e o Guga ainda tomou um murro – de raspão, de raspão, só lascou um pouquinho o siso –de um segurança ao tentar, em Berlim, entrevistar para o blog paterno umas moças que ganham a vida de maneira heterodoxa.


Além de não encontrarem a freirinha e, muito aquém do convento, quase apanharem de um alemão enorme, os rapazes estão numa pindaíba de fazer dó.

O Noblat (sim, o blog é o dele) deu uns trocos para os rapazes e disse:

-Os preços são mais ou menos iguais aos de Sobradinho e da Ceilândia, vão tranqüilos que com isso vai dar...

O Guga bebe água das torneiras e o dia inteiro engole pão com aquelas salsichas intermináveis.

O Bernardo se cuida melhor. Além da mesma água torneiral alimenta-se com uma parcela dos aspargos e morangos que colhe no intervalo das 73 fotos que manda para o blog diariamente.

(Manda pelo meu computador, claro.)

O chefe deles falou:

-Vão tranqüilos que a Europa é uma teta. Tem internet, wireless, em cada esquina.

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19.06.06

O Brasil vai crescer e vai chegar, diz Bora

Reuters


Um dia depois dos austrálios. Hotel Kempinski. Esbarro em Bora Milutinovic. Ele já esteve em cinco copas como técnico, e enfrentou o Brasil em três. Em 90, com a Costa Rica. Em 94, pedreira, treineiro dos Estados Unidos. E em 2002 com a China. Radiografia feita no saguão. Como já sei o que eles pensam da seleção amarela, guardo minha opinão e amplio a pergunta:

- Mister Bora. E o Brasil? Está bem, ou está mal?

- Mal? Se o Brasil está mal, imagine o resto das equipes. O Brasil é o Brasil. Começa assim e, de repente, quando você acorda, ele já chegou...

- Mas a equipe não lhe parece ainda um pouco desorganizada, como disse o Guus Hiddink, técnico da Austrália? Especialmente ali na cobertura pela direita?

- Às vezes o tempo para organizar e assimilar perfeitamente não é suficiente, mas vocês têm jogadores que ninguém mais têm. Isso irá se resolvendo...

- Alguma semelhança com o time de 94, aquele que o senhor enfrentou?

- É outro tempo. Em 94 o Brasil não vencia havia 24 anos, desde então foi campeão duas vezes e vice na outra, pode se permitir jogar de outra forma, não tem aquela pressão por um título que não ganhava mais...

- Não tem pressão?

- É, no Brasil sempre tem, mas já foi maior...

- E a Argentina?

- Está bem, mas enfrentou a Sérvia, não é? (NR: Em tempo, Bora é da Sérvia)

- E aí?

- E aí, meu amigo, que como diz o Zagalo, o Brasil é o Brasil... E o Brasil vai crescer e vai chegar, escreva

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18.06.06

Ronaldo não se acha, mas Parreira acerta

Vai começar. Recebo um recado das minhas coronárias:
-Você está muito perto do gramado!!!

Elas têm razão. Três filas abaixo começa o campo. Dá para ouvir tudo, ver tudo. Estou exatamente à altura da linha divisória do meio campo.

O gramado não tem 120 metros de comprimento –a regra permite a partir de, se não me engano, 98 metros. Menos espaço ainda para os nossos amarelos. E para os deles, que vão estar mais próximos para morder.

Vim num vagão do metrô só com austrálios, e seus cangurus de borracha vestidos com a bandeira. O menor deles, os austrálios, não os cangurus, é do tamanho do Adriano.

Pelo caminho encontro o Larri Passos, aquele que foi treineiro do Guga Küerten. Ele estava p da vida.

Com ele um compridão, branco, com aquele sotaque dos açorianos de Floripa. Só podia, pela lata, ser irmão do Guga. Pois o Larri estava p:
-Esses caras são burros pra....

Não vou escrever o que ele disse. Um pessoal, que assiste à novela das 8, protesta contra o linguajar chulo. Eu, que me ruborizo com a novela das 8, vou evitar repetir o que o Larri disse. (Rima com baralho).

- O Guga não jogou uma vez em Wimbledon por causa disso. Em Paris, agora, toda minha família gripou, tá ruim da garganta, só por causa disso, e esses burros não sabem que o problema do Ronaldo deve ser por isso?

“Isso”, a que se refere o Larri, é o pólen solto pelas flores nesse início de verão europeu e que está pelo ar, às vezes como nuvem.

(Viu aí, cambada de maldosos! Não foram os nuggets... Nem Elas. Foi o pólen!)

Torço, confesso, pelo Ronaldo. Torço muito.Me convenci ainda mais quando, no metrô, os austrálios entoavam:
-Fat Ronaldo, fat Ronaldo.

O Dida já bate bola, se aquece em campo.

Os heróis amarelos surgem na boca do túnel. Aquecimento. O astral é outro. Arrepia. Juninho Pernambucano, Kaká, vários saúdam a torcida, vibram. E a torcida parece ser outra. Está viva.

A Fátima! A Bernardes. Logo aqui abaixo, última fila antes do banco de reservas. Está de verde e cáqui, o uniforme da Globo, mas carrega nas mãos uma amarelinha, alguém lhe deu, com um “Fátima” às costas. Ela merece. E traz sorte, é do bem.

Os austrálios se aquecem. Gente, os caras são grandes. Intermináveis. AC/DC, nos alto-falantes, para eles. Para o Brasil rola uma Aquarela, estilizada.

Zeca, o Zeca Costa de O Estado de Minas, amigo de outras copas, passa por aqui. Trocamos cumprimentos, mantemos o ritual dos mundiais anteriores. Quem se vê e se cumprimenta antes de uma partida deve repetir o gesto no jogo seguinte.

Sem contar as meias, cuecas, sempre as mesmas, como vocês já sabem –com ou sem lavar é decisão de foro íntimo- e, sobretudo, sem jamais responder ao bom dia, boa tarde ou boa noite de argentinos quando já dentro do estádio.

Nada pessoal e, verdade seja dita, eles fazem o mesmo. Quando eles jogam, nós só no Saludos, Como estay, Ôla, Oi Chica... todo aquele espanhol pessoal e intransferível, mas eles também não caem nessa e nem tchun.

Os rapazes seguem para os vestiários, para vestir o manto amarelo. Guus Hiddink se aproxima, busca, e Kaká, Ronaldo e Roberto Carlos o cumprimentam. Na memória de Guus, de Ronaldo e Roberto, o partidaço inesquecível, semifinal contra a Holanda em 98.

Rodolfo Fernandes, amigo de outras paradas, fera e gente boa. Cumprimentos. Mantemos o ritual. 

À beira do gramado, o jogo começa, no post que se segue.

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Adriano faz, com garfo e faca

Times em campo. Os austrálios, de preto. Os rapazes de amarelo, em círculo, se abraçam. Bola no centro. Começou.

A torcida sabe, intui, que algo muito mais sério, além do físico, perturba, paralisa Ronaldo. Em coro, que contagia e emociona a todos, tenta despertá-lo: 
- Ronaldo, Ronaldo, Ronaldo...

Ronaldo toca na bola, uma duas vezes...não vai dar. Quem já foi boleiro sabe. A confiança está por aí, em algum lugar, mas se foi. Estou quase dentro do campo, muito perto. Ronaldo não tem segurança, confiança, sequer para tocar na bola, que parece lhe queimar os pés.

Ele recebe a terceira, a quarta, Parreira está à beira do campo. Ronaldo, de novo... nada. Parreira retorna ao banco, balança a cabeça em sinal de negação, e desalento. Ele sabe, o time inteiro sabe, sente em campo. Ronaldo parece estar amarrado.

O homem que arrastou o Brasil para o penta, que está a um gol de superar o mito Pelé em mundiais, a três de se tornar o maior artilheiro de copas em todos os tempos, parece mentalmente esgotado. Isso não é físico, ele perambula pelo campo.

Estivéssemos na Bahia, e Augusto César, do Portão, Mãe Stella, do Axé Opo Afonjá, Mãe Carmen, do Gantois, alguém se entenderia com o deuses e o desamarraria, mas aqui? ... Goethe, Kant, Hegel... não vai dar.

A conta vai seguir apenas para o Ronaldo, mas o gaúcho, até agora, está pelo meio campo, parece fugir do jogo. A propósito, lá vai ele, vai queimar meus dedos, invade a área e ... tropeça na bola. Cai. Sozinho.

Kaká toca de primeira, a bola volteia o beque, Ronaldo se enfia, o estádio se levanta...Ronaldo erra o voleio, cai.... se levanta e caminha. Cabisbaixo.

A depender do resultado a conta pode ser entregue para o Ronaldo, só para ele, mas onde andará o gaúcho? Meio campo, cisca, cisca, mas cadê a luz?
Intervalo.

Segundo tempo. Dida grita “sai” e esbarra em Lúcio e no austrálio, dá de bandeja. Quase. Zé Roberto entrega. Zagalo, magrinho, magrinho, sai do banco, rosto esfogueado, ultrapassa Parreira e berra, berra com Zé Roberto.

Não consigo ouvir o quê, os austrálios também gritam com o outro quase, mas leio os lábios do velho Lobo, tem a ver com as cartas. Baralho. Zagalo, novamente berra. Desta vez com Lúcio, que sobe sem parar.

Adriano luta, luta, e luta – também, sempre, com a bola. Parece, com a redonda nos pés, um garimpeiro de Serra Pelada a manejar garfo e faca.

Ronaldo recebe, vai para cima, à altura da entrada da área, pela esquerda, passa o pé direito por cima da bola, uma, duas vezes, atrai a atenção de três marcadores, percebe Adriano à direita, e toca.

Adriano apara com o pé esquerdo, toca mais, ainda mais para a esquerda, e dispara. A bola passa por baixo da perna do beque austrálio e.... gooooooooooollllllllllllllll...

Com garfo, faca, e tudo mais.

Parreira está possesso, aponta para o outro lado. Imagino ser ainda com Zé Roberto, mas agora acho que não. Substituições. Sai Emerson –será que era com ele ou é porque ele já tem um amarelo do primeiro jogo? Sai Ronaldo.

À beira do gramado, cumprimenta Parreira.

Emerson. Joga na Juventus, é campeão, sabemos de tudo isso. Mas será que alguém poderia ajudá-lo? Quando o vejo em campo, com a bola nos pés, não entendo por que ninguém o auxilia.

Reparem, ele nunca consegue entregar aquela mesa, as duas luminárias e as três cadeiras que carrega o tempo todo. E ninguém dá uma mãozinha, pô?

Robinho vai pra cima, corre, incendeia. Está ganhando o lugar. Kaká, grande partida, para mim o melhor em campo, cabeceia na trave. Fred entra. No lugar de Adriano. Que não gosta.

Adriano abaixa a cabeça, ameaça negacear, mas não o faz. Cumprimenta Parreira ao deixar o campo.

Fred recebe, deveria tocar para Robinho, mas busca Kaká. A bola volta seus pés, e ele agora empurra para Robinho, que fuzila. Bola na trave, sobra para Fred e gooooooolllllll....


Fred não sabe para onde correr, o que fazer. Tampa o rosto com a camisa, destampa, põe as mãos na cabeça, enlouquece com seu primeiro gol numa Copa do Mundo...

Robinho vai para cima, entorna, entorta de novo. Kaká voa.

Roberto Carlos – companheiro na home dos blogs do Terra na Copa –...caro Roberto, nem todos têm as suas coronárias! Uma cerezada dessas a cada jogo e vai ser difícil, companheiro.

A bola sobra para Kaká, é o terceiro...para fora.

Fim de jogo.

Na entrevista Parreira mostra, claramente, o desejo de preservar Ronaldo. Lembra que ele estava sem jogar há dois meses no Real Madrid, diz que ele melhorou muito dos croatos para cá.

Talvez também por isso tenha tirado os dois da frente, não apenas Ronaldo.
Parreira acertou. Com Robinho, com Gilberto Silva, e com Fred. Deu sorte. Pelo que vimos, vamos precisar.

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