03.07.06
Valeu, até a próxima
Amsterdam. Ainda mais deliciosa num dia de verão. A Copa já está longe, quase uma eternidade, mesmo com olhos e ouvidos à espreita de que Felipão venha nos redimir, tornar imenso Portugal. Hora do último blog, tempo da viagem quando surgir uma vaga, do mergulho de volta no Terra Magazine. Restam fragmentos.
Apesar do final, foi divertido, lindo, valeu a pena. Valeu ver gente de quase todo o mundo, e valeu ver gente de todo o mundo com a camisa amarela. Valeu, em mais uma Copa, ver que holandês, inglês, sueco, os cartesianos, racionais, também choram e se desesperam por causa dela, a bola.
Valeu pelos amigos de outras Copas e carnavais, e pelos novos amigos. Pela convivência com o Wanderley, o Allen, os Marcelos, o Sérgio, o Toninho, toda a rapaziada do Terra.
Valeu viajar pelas Autobahns sem GPS – a essa altura acho que os únicos na Europa Ocidental - com os amigos Bernardo e Guga a discutir, guiados tão somente pelo faro:
-Acho que é por aqui...
-Não, deve ser por ali...
Buscávamos Berlim, Munique, Colônia, Dortmund...Sem o GPS e com esse método genuinamente brasileiro, que dispensa mapas, acabamos muitas vezes perto de Sorocaba, Camaçari, Viamão, Caruaru, Volta Redonda...
Valeu assistir nas arquibancadas ao Messias de Jesus, da Sociedade da Bahia, entrevistar, gravar, editar, enviar, fazer tudo ao mesmo tempo, para incontáveis programas, um verdadeiro homem-rádio, cheio de artes e talentos.
Valeu conhecer de perto a Fátima, a Bernardes. Não pela baboseira da fama, da celebrinagem global. Mas por perceber que apesar dos 40, 50 milhões de telespectadores, os pés continuam no chão, saber que ela luta por isso, os pés no chão, todos os dias, com consciência. Valeu constatar que a simpatia é tanta quanto o talento, entender por quê, dos jogadores aos câmeras e motoristas, dos colegas a quem quer que se aproxime, todos a admiram.
Valeu acompanhar de perto o cotidiano da luta, brutal, épica, do Ronaldo para tentar voltar a ser Ronaldo.
Valeu pressentir, intuir, ver –com dor, imensa tristeza - que o gênio Ronaldinho não teria como escapar da armadilha. Que ele não teria como suportar o peso de tanta responsabilidade, que além de melhor-do-mundo, negócios milonários, todas as lentes, câmeras e olhos do planeta, seria demasiado, além do humano, carregar a fome, e a insaciável fome de vencer - tantas vezes mal direcionada- de 180 milhões de brasileiros.
Pelé, em 66, viveu isso. Guga Kuerten vive isso. Ayrton Senna viveu, e morreu, por isso.
Valeu ter a certeza de que Ronaldinho, Kaká, Robinho, Cicinho, Juan, Lúcio e tantos outros perderam mas aprenderam, e estarão mais fortes, vacinados, na próxima.
Valeu, mais uma vez, viver e assistir às batalhas no Curralzinho de Darwin, onde a nossa espécie, os repórteres, jornalistas, -isentos, imparciais, objetivos - lutou bravamente pela sobrevivência da espécie.
Valeu ver a dor dos argentinos e o prazer deles com a nossa dor.
Valeu ver, viver, a batalha da racionalidade extrema, das regras e manuais do cartesianismo alemão, com a improvisação, a indisciplina, as não-regras e não-manuais dos verde-amarelos. Valeu confirmar que nem um e nem outro, que o caminho está no meio.
Valeu viver Königstein, Berlim, Munique, Stuttgart, Bergish Gladbach, Dortmund, Colônia, Frankfurt…
Valeu rever o Zeca e o Jaeci, o amigo Rodolfo, o Anselmo, a Cora, e a armata do Globo, o Prósperi e toda a turma do JT, o Anderaos, o Piza, o André, e o Alberto Helena, o Pedro Ernesto, o Osterman, o Benfica e toda a tropa do sul.
Valeu aquele treino, numa cidade de nome impronunciável, com o Torero e a moçada da Folha. Valeu reencontrar o ex-aluno Mateus Benato mandando ver no Lance e valeu, muito, o Lance. Valeu o Tá na Área, rapaziada.
Como valeram o IRDEB e falar com toda a Bahia em A Tarde.
Valeu testemunhar a admiração de colegas de todo o mundo pela lenda Tostão e reencontrar, menos que o necessário, os amigos Juca e André, Lúcia e Luis Fernando. Valeu a solidariedade e a convivência com o amigo Fabio Altman, um otimista inveterado até o Zidane começar a bailar em campo.
Valeu, no meio daquele sufoco contra a Croácia e a pestilência das mesmas meias de sempre, a perfumada aparição, que se repita, da Adriana Pizzotti.
Valeu reencontrar o Renato e o help da Bebê via Cila. Muita energia e grana no lixo, incontáveis gargalhadas a cada trapalhada, mas valeu o duelo – sempre a crônica de uma derrota anunciada – com as rebimbocas e parafusetas da tecnologia.
Valeu a presença, o trabalho, a força do Rodrigo, Alexandre, Fernanda, Amanda, Carol, Mariana...no Terra Magazine.
Valeu conviver com os nossos heróis –sim, hoje querem esfolá-los, mas isso passa -, eventualmente equivocados, mas gente do bem. Valeu pelas vitórias, mesmo sofridas, pelos gols, pelo futebol.
Valeu, pelo menos isso, ver a cartolagem cebeéfiana enfiar o rabo e a incompetência arrogante entre as pernas.
Valeu, ao menos isso, assistir de perto, ao vivo, ao desmanche do oba-oba, do somos-os-melhores-do-mundo, da presepada ufanista e patrioteira, cenário enfadonhamente repetitivo - até com um cavalo, o Baloubet de Rouet, lembram-se?- e no qual só quem fatura são os mesmos de sempre.
Espero, sem tanta esperança assim, que a dose da vacina tenha sido suficiente para a patuléia.
Este blog agora entra em estado de hibernação, até que outro evento exija.
Valeu a atenção, a paciência, o acesso, o elogio, a crítica, a presença de todos vocês, caríssimos e caríssimas internautas.
Valeu, está valendo, Amsterdam neste ensolarado fim da tarde, som na caixa, com Velvet Underground, Lou Reed, em “Pale Blue Eyes”...