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Arquivo de: Junho 2006

30.06.06

Ronaldinho Gaúcho: ou encara ou... a fila anda

foto: Reuters


Ele é tímido. De alguma forma sua origem o estimula e o inibe. Quando diz que o preconceito contra si é por conta de ser quem é e de vir de onde veio expõe o essencial para se entendê-lo. Mesmo que esteja certo.

Se entender a sede que o move. Moveu em 2002, e desde antes, ainda na sua Paulista, interior de Pernambuco. Ele já fora bem em 98. Mas continuava sob suspeita. Alguma suspeita. Não para todos, mas para muitos.

A timidez, o jeitão desengonçado configurado nas pernas arqueadas, a incapacidade para compreender, ou para enfrentar, os códigos do Curralzinho de Darwin, onde a mídia –quase sempre isenta, imparcial e objetiva - luta para sobreviver, o conjunto da obra o levou a estar sob eterna suspeita: no instante decisivo ele falharia.

Não falhou. Nos instantes decisivos, na Copa de 2002, foi protagonista, talvez o principal, ainda que muitos ainda não tenham notado, ou sigam a dizer que não.

Além do que fez em toda a Copa, como havia feito em 98 - à exceção da final quando ninguém fez quase nada -, no instante decisivo ele não falhou. Ao contrário, assumiu o comando, brilhou.

No primeiro gol de Ronaldo ele disparou o torpedo rasante que levaria à queda do até então invencível Oliver Khan. No segundo, criou a centelha, o corta-luz que reduziu a racionalidade germânica à condição em que pode ser derrotada pelo improviso.

Rivaldo abriu de supetão as pernas arqueadas e a bola na diagonal enfiada por Kléberson encontrou Ronaldo, que a dominou, escolheu o canto e tocou, no gol que sacramentou o penta.

Ele ainda sonhou com esta Copa. Gravou seus 14 gols no bicampeão Olimpiakos, da Grécia, mandou a fita para o Brasil, mas já era tarde. Estava fora.

Recordo Rivaldo por conta de expectativas distintas, quase opostas, em relação ao 10 de agora na seleção amarela.

Ronaldo, o gaúcho. Melhor do mundo, gênio, Rei de Barcelona, campeão da Europa, mais malabarista com a bola do que as focas e golfinhos do aquário de Baltimore, candidato –indicação não feita por ele, anote-se - a “ganhar o mundial sozinho”.
A ver.

Não cometerei aqui o pecado de entregar-lhe o mesmo fardo que jogaram nas costas do outro Ronaldo – e do qual ele só começou a se livrar três gols depois. Mas, vamos aos fatos.

Noutro dia ele disse que jogava mais atrás por determinação do professor Parreira. No jogo contra os ganos (Ai, ui, e vêm pauladas de quem não aceita meus ganos, francesos e assemelhados, mas, como eles são meus...) o professor enfiou o Juninho e jogou-o para a frente.

E aí? Aí, nada.

Normal. Em 2002 ele era coadjuvante, não o anunciado dono da cocada preta. Saiu-se bem. Agora ele é, foi ainda mais antes da Copa, o centro das atenções.

Ronaldo, o outro, o Fenômeno, sabe desde a final em 98, desde sua morte para a bola trombeteada pré- 2002, e desde a tentativa recente de enterrar sua trajetória histórica sob um monte de gordura, o que é ser o centro das atenções.

O que é carregar a fome e a vontade de vencer de quase todo um país.

Ronaldinho, o gaúcho, se alimenta das atenções, quanto mais melhor, como é sempre, deve ser sempre, com quem está no proscênio. Mas ele quer mais, muito mais.

Noutro dia, a bandeira. Barcelona contra alguém. Ele passou a bola para um lado e, milésimos de segundos depois, olhou para o outro lado.

Esse movimento ele costuma executar de forma concatenada: olha para um lado enquanto toca para o lado oposto. Mas no dia em que ele, milésimos de segundos depois de já ter já tocado, olhou para o outro lado, esvaziou a integridade da jogada (belíssima jogada), deu uma pista.

Uma pista do que o move. A fome, insaciável, pela atenção, pela admiração do outro, dos outros, se possível do mundo inteiro.

A hora chegou. Esta é, deveria ser, a sua Copa do Mundo.

Dois, dois e meio, três bilhões de humanos estarão de olhos em Ronaldo gaúcho amanhã. Isso pesa, muito. Às vezes insuportavelmente.

A hora é esta. Ou encara ou...a fila anda.

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27.06.06

Brasil vence, com ajuda divina

foto: Reuters

Mãe e filho, África e Brasil. Jogadores dos dois times, sem combinar mas ao mesmo tempo, cada um em seu lado do campo, formam uma roda, se abraçam, e oram. Bola no centro. Adriano ergue mãos, braços e olhos para o céu.

(Esse realmente anda necessitado.)

O Emerson não pediu, Senhor!, mas por favor inclua-o no pacote. Ao menos, ajude-o a entregar aquela mesa, as três cadeiras e as duas luminárias que tem carregado em campo.

Ronaldo está arisco, chama, Kaká percebe e toca. Bem, vocês viram aí, o Galvão deve ter se esgoelado. Mas é preciso dizer algumas palavras.

No meu ângulo de visão está um japônio. Contra os austrálios, ele sentou-se exatamente a meu lado. Anota tudo, faz gráficos, cálculos e desenhos impressionantes. Se o Niemeyer vê, contrata.

Pois o Ronaldo acabou de dar aquele nó, deslocar a oitava vértebra do goleiro gano, rolar para as redes, e o japônio ainda está lá, parado, olhos arregalados e mãos à frente da boca:
-Oh!Oh!Oh.

No intervalo procuro pelo colega de isenção, imparcialidade e objetividade. O japônio está debruçado sobre a prancheta, ainda a calcular alguma coisa relacionada ao nó do Ronaldo. Tira os olhos do papel e me diz, em português:
-Bonito, bonito...

Emerson sente alguma coisa...Senhor, eu sou do bem, não pedi e nada tenho com isso, deve ter sido outro ... eu apenas roguei para que ele se livrasse daquela mesa, das três cadeiras e das duas luminárias.

Emerson toma a bola, dá três passos, tropeça em alguma coisa –talvez num fio das luminárias – , o Lúcio, aquele leão, impaciente, arranca a bola do Emerson e arranca. Toca para o Cafu.

Cafu - o jogo acabou e o Cafu ainda está correndo, meu Deus, como corre o Cafu! Aos 36 anos!-, o Cafu corre, chega quase à linha de fundo e entrega, mamão com açúcar, para o Adriano.

O Adriano é do bem, todos eles são, quem convive sabe, mas o cara tem santo forte, e isso não é coisa que dependa dele.

Senão, vejamos.

O Edmilson deu aquela cotovelada nele; sem querer, eles são amigos. O Edmilson embarcou de volta 24 horas depois. Joelho. O Robinho.

O Robinho já estava dormindo de caneleira, sunga, dando pedalada no lençol, pronto pra entrar e .... catapimba! Coxa. O pessoal do Rio me informa que os tambores da Vila Cruzeiro são quentes.

Devem ser, devem ser. O bandeira não viu, as coisas taparam os olhos dele. Naquela reprise ligeira, aqui no monitor da minha bancada, o Adriano esteve impedido por três vezes no mesmo lance.

Nas duas primeiras, ok, impedimento passivo, mas na hora da coxada-joelhada final na bola e o gol, me pareceu estar de novo à frente.

Compensação, compensação. Para mim ele sofreu pênalti quando tomou o cartão amarelo, mas há controvérsias, há controvérsias. De qualquer modo, Mr. Lubos Michel, o juiz, escapou de boa.

Se o eslovaquio não dá o gol, depois do pênalti e do amarelo, imaginem a coisa lá na Vila Cruzeiro; e o juizão, amanhã de manhãzinha, porta da casa em Bratislava, a se deparar com a galinha, a farofa e as velas...

Segundo tempo. O Gilberto Silva arruma tudo que faltava arrumar lá atrás, o Cafu pode seguir correndo, subindo. Outro partidaço do leão Lúcio, e Juan, mais uma vez, de fraque e cartola em campo.

Não fosse um zagueiro, e que ainda fala pouco e com a língua presa, todos já teriam percebido: Juan é, até agora, o melhor amarelo na copa. Tanto que um ooohhhhh percorreu o estádio quando aconteceu aquilo.

Parece incrível, mas ele errou. O Juan errou uma jogada na Copa!!! Os ganos quase aproveitaram, mas o oooohhhhh do estádio inteiro foi uma homenagem ao Juan.

Escolheram o Zé Roberto, outra vez, o melhor em campo. Ele jogou muito, fez um belo gol, é chei-di-perna, como dizem na Fonte Nova, mas o Juan tem sido um espanto.

Roberto Carlos, meu vizinho de blog. Nenhuma cerezada, até quase o final. Aí, não deram uma bola para ele (ele tinha razão, ia sair na cara do gol), e quando não deram a bola, ele cerezou.

Os ganos quase fizeram no contra-ataque, ali pela área do Roberto, enquanto ele ficou lá na frente, esperneando, p da vida, a discutir com o gaúcho.

Reparem, quando assistirem à reprise pela nona vez: ele fica lá na frente, dando pulos de raiva e depois, na jogada seguinte, dá um chutão lá de trás, como se quisesse surpreender o goleiro.

Não, não foi isso, não. O lateral de Araras estava uma arara, por isso aquele chutão. Sigo com minha tese. Há ali, pela ala esquerda, um problema de superego. Não estruturou direito, falta auto-censura, umas poucas gramas pelo menos.

Quando assistirem à reprise pela décima–oitava vez reparem: na seqüência desse mesmo lance o Roberto se vira para o banco e, se bem entendi, pede substituição. Percebam se não foi assim.

Kaká. Deu o passe para o primeiro, mas estava com muita pressa, errou muito. Não foi tão bem como nas outras, mas seu crédito é imenso.

Imenso é o Dida. Tapa o gol inteiro. Deve ser terrível o atacante invadir a área, chegar perto do gol e ... lá está o Dida, interminável.

Ronaldo, o gaúcho. Disse-me outro dia que está mais atrás porque o professor pediu... o professor enfiou o Juninho, que entrou bem e pode até não sair mais agora que o bicho vai pegar... e o gaúcho seguiu lá atrás.

Em 2002 o gaúcho era coadjuvante, não a estrela principal, que agora espera-se que seja e ele ainda nem chegou perto de ser. É até bom que esteja a dever. De repente, paga na próxima.

Ricardinho: entrou muito bem, anteviu e deixou o Zé Roberto na cara do gol.

Ronaldo. Procuro aqui no centro de mídia, e não acho, a turma isenta que jurava encontrá-lo sempre na padaria de Madrid batendo um sandubão de presunto – regado a coca preta-, ou no super, com o carrinho atrolhado de nuggets e leite condensado.

Agora virão os francesos. Pode até, no final, não terminar bem, mas o Ronaldo já deixou o alemônio Gerd Muller para trás, e é o maior artilheiro da história das Copas.

Passa por aqui Paolo Vicentino, do Corriere della Sera. Batemos uma bola, concordamos:
-É um time pragmático, europeu na postura, no jeitão em campo; não na mecânica, que trataremos em outro dia. Na definição, na conclusão, é, minimalisticamente brasileiro.

Gol dos espânios, contra os francesos. Gols dos francesos, contra os espânios. Os francesos avançam, 3 a 1.

A torcida verde-amarela, por aqui segue a berrar pelas ruas o que gritou em coro nas arquibancadas:

-Ih, f...deu, o Ronaldo emagreceu, ih, f...deu, o Ronaldo emagreceu...

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O jogo e a história

 

Desembarcou, direto de Londres, o Renato Schulman. Como em outras copas, com sua bandeira. Num desses mundiais, encontro de homens das finanças, como ele, bancado por um dos patrocinadores. Alguém pede a palavra:

-Queria contar uma coisa...


Platéia seleta, poucos se conheciam entre si, ficou aquele clima; vai que o cara resolveu sair do armário justo ali, horas antes do jogo. O cara foi em frente:


-Hoje o Brasil joga, quase uma decisão... e isso me faz recordar um dia muito importante na minha vida...


Expectativa. Silêncio. Constrangimento.


-Vocês se lembram da maior, da mais bela defesa que um goleiro já fez em uma Copa do Mundo?


Os que estavam vivos e atentos à bola em 70 balançaram a cabeça, sim, nós nos lembramos.


-...o Jairzinho arrancou pela direita, cruzou, o Pelé subiu e ficou lá no ar; até hoje não sei como ele conseguia fazer aquilo, subir e ficar parado por alguns milésimos, esperando a bola, pois quando a bola chegou ele testou, forte, para o chão, indefensável...eu vi, todos vimos a bola dentro, eu vi o gol...


Silêncio. Expectativa. Mas a platéia já relaxada, não era armário, alguma coisa assim. Era só um doido que resolveu subir no palco. E continuava lá:


-...mas aí o Gordon Banks, o goleiro da Inglaterra, deu um salto para a direita, coisa de frações de segundo, e quando estava no ar esticou a mão direita e deu um tapa na bola, que estava quase dentro, para mim já era um gol feito... uma coisa simplesmente impossível aquela defesa.



Sim, ô maluco, mas e aí, e nóis com isso? , pensou o Renato, doido para se arrancar para o estádio.


-...até hoje me arrepio quando penso nesse lance. É uma coisa que eu nunca, até a minha morte, vou esquecer...


Silêncio. Expectativa. Já alguma irritação, ele conclui:


-...eu era o lateral esquerdo da Inglaterra, o homem que marcava o Jairzinho, nunca na minha vida eu vou esquecer esse lance, esse jogo...


Pensem nisso, rapazes, vocês que trafegam no ônibus verde dos amarelos, que tem gravada na janela lateral a frase "Veículo monitorado por 180 milhões de corações brasileiros".

Frase no outdoor de patrocinadores que é o buso da armata verde-amarela. 

Parênteses. Para quem tem perguntado se “amarelos” é desprezo. Não. Nunca. É uma homenagem.


Quase todo mundo que está aqui se veste de amarelo, em homenagem à seleção. E muitos nos chamam assim, os “yellows”. Como os italianos säo a Azzurra, os “azuis”, e os uruguaios “a celeste”.


Penso no lateral inglês, cujo nome não recordo.


Penso no lateral que a história engoliu e no que, daqui a poucos anos, terão guardado do dia de hoje os rapazes que fizeram 3 x 0 em Gana no estádio de Dortmund.

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25.06.06

Ronaldo conversa no castelo. Um cisne testemunha.

Início da tarde, muito calor. O bosque que cerca o Castelo de Lerbach é algo para a literatura. Não por acaso Parreira quer esticar a estadia por mais dois dias, ficar até a quinta 29, se a seleção amarela bater os ganos.

Parreira, desde o ano passado, se apaixonou por Lerbach. O silêncio é absoluto, a mata é espessa, bem cuidada, e em frente ao casarão o lago empresta o toque final ao bucolismo do cenário.

Quem se hospeda aqui está obrigado a fazer melhor o que tem a fazer, seja o que for.

Ronaldo, sentado numa cadeira no meio do gramado, aparenta tentar dar o melhor de si. Tenta, mas deixa visível sua impaciência. Dezoito gravadores, e seus donos, o cercam. As perguntas sucedem-se, por cinco, dez, quinze minutos, até o final de cada bateria.

Primeiro entrevistam os de rádio e internet. Quando saem estes, vêm os meios impressos, depois a televisão. Escalados para a batalha estão, além de Ronaldo, Juan, Roberto Carlos e Emerson.

De calção, camiseta e tênis, Ronaldo tem nas mãos a chave do seu quarto. Responde no automático enquanto abre e fecha o encaixe que prende a chave à correia no pescoço.

-Tlec, tlec, tlec, tlec...

A menos de 10 metros, esparrachado no gramado, enorme, um cisne branco.

Monocórdio, treinadíssimo nesse jogo, Ronaldo rebate, uma a uma, as perguntas. Rosto sério, sem um sorriso, faz de conta que esconde enquanto deixa à mostra a impaciência. Uma impaciência estudada. Aprendida e apreendida.

Faz lembrar, muito, o Romário de 94. Não lembra, em quase nada, o Ronaldinho, menino alegre e saltitante de 94, o apreensivo, mas ainda não na defensiva, Ronaldo de 98. Ele tem suas razões para tanto.

Sabe que cada pergunta pode conter uma armadilha. Quando pressente o perigo, seja real ou imaginário, dá de bico:

-...isso é impressão sua...você é quem tá falando... essa análise é você quem faz...essa é a sua opinião...meu peso é algo que só interessa a mim e a mais ninguém...

(Ronaldo, percebe-se, não tem gordura aparente no corpo).

É um jogo de gestos. E os gestos dizem tudo. Emerson está de pé, permanece de pé por todo o tempo, e fala para meia dúzia de repórteres. Juan, nesse instante, para uns quatro ou cinco, sempre de pé. Roberto Carlos, mais uma meia dúzia, de pé.

Outros três ou quatro cercam a roda que já cerca Ronaldo. Todos, homens feitos. Pais, um ou outro já avô. Com os braços esticados para baixo, a olhar para baixo, a dirigir suas perguntas para baixo, a empunhar gravadores voltados para baixo, para o rapaz de 29 anos. ...cinco, dez, quinze minutos... E ele, Ronaldo, sentado. Sem olhar para cima, sem olhar para ninguém enquanto responde:

-...não me interessa se quem vai ganhar é a Alemanha ou a Argentina, o que me interessa é o Brasil...

-...O Adriano chateado? Não tem ninguém chateado, estamos todos unidos, uns ajudando aos outros, só pensamos em vencer a Copa do Mundo...

-...o Brasil não tem que se preocupar com ninguém, os adversários é que têm que se preocupar com o Brasil..

Luis Antônio Prósperi, do Jornal da Tarde, pergunta:

-Você fica chateado pelo fato do Brasil, você, serem questionados o tempo todo, terem que provar quem são o tempo todo?

-Já estou acostumado. Minha vida tem sido provar isso o tempo todo...

Outra pergunta:

-Ronaldo, você se queixa da imprensa, mas quase todos ex-jogadores que se tornam analistas, cronistas, terminam por fazer críticas da mesma forma. E não só no Brasil. Há quarenta dias o Klinsmann, da Alemanha, era um idiota, hoje é um semi-deus...

Alguns poucos segundos de reflexão:

-Bem, eu não sei quais são os critérios que vocês jornalistas usam, cada um faz seu trabalho...

E o fecho da chave:

-Tlec, tlec, tlec,tlec...

A cicatriz na parte posterior do joelho direito é impressionante. As perguntas se sucedem. E as respostas, sempre monocórdias:

-Estamos unidos para ganhar a Copa...

Os jornalistas se rendem, pouco a pouco. Dali não vai sair mais nada. Fim da conversa formal. Quase todos se afastam. Ficam uns três ou quatro, nos quais ele certamente confia, pelo menos um pouco mais.

Ronaldo relaxa, sorri. Sentado. Esparramado na cadeira no meio do gramado do Castelo Lerbach.

A conversa, conversa de homens, sem gravadores, agora flui. Ronaldo gargalha.

Emerson, ameaçado, cada vez mais, pelo futebol de Gilberto Silva, segue em pé. Explica, responde, fala. Sobre ele, sobre a entrada ou não de Gilberto Silva em seu lugar. Sobre Gana.

Os cabelos, já rarefeitos na porção superior dianteira, penteados na direção onde escasseiam.

Será a luz, a proximidade, o resultado do abaixar-se um pouco para chegar aos gravadores, ou Emerson está um pouco mais corcunda?

Ronaldo segue sentado, ainda mais largado na cadeira. A mão direita escorrega pelo calção, se coça, num gesto absolutamente masculino. Alguns repórteres seguem a cercá-lo, sempre a olhar para baixo.

Ronaldo não olha para cima, busca o gramado, o lago à sua frente – o cisne segue deitado a 10 passos, agora de olhos postos na sua imagem refletida na água -, comenta:

-...quem vai jogar comigo, eu não sei, o que eu quero é estar lá....gol duzentos na Copa? Legal, se vier, é mais uma estatística... mas o que eu quero é ganhar o jogo, a Copa...

Juan segue de pé. Brinco prateado e uma jóia incrustada no lóbulo da orelha esquerda. Juan, se não o melhor, o mais regular jogador amarelo na Copa, o homem que joga de fraque e cartola, atende a dois jornalistas:

-Você não falava nada, está falando mais agora...

Ele, que joga e mora na Alemanha, responde, com sua língua presa:

-A gente vai vivendo, fica mais velho...e também estamos há muito tempo sem conversar com quase ninguém, só entre nós...e ainda mais na nossa língua, em português...

Roberto Carlos. Em pé, a sorrir. De quando em quando, em campo, o lateral parece se desligar da importância, aparenta estar a disputar um Olaria x Bangu quando está é numa Copa do Mundo. Agora fala sobre Robinho, o grande assunto, a incógnita, o mistério do dia.

A ressonância magnética é no dia seguinte. Pouco depois da conversa no castelo, o médico, Runco, diria não ser possível ainda fazer previsões. Roberto, pela sem cerimônia em campo, nas entrevistas, dá pistas de não ter completamente estruturado o superego.

A auto-censura é pouca, quase nenhuma. O lateral dispara, entrega:

-Conversei com o Robinho, ele me disse que não vai dar para jogar...

Quando, em quase todas as noites de Bergisch Gladbach, faz dali o Jornal Nacional, Fátima Bernardes ouve o grasnar de um pato. Já até alertou seus telespectadores sobre a existência do pato, dos patos, daquele ruído ao fundo.

Fim das entrevistas.

Ronaldo, segue sentado em sua cadeira. Esparramado. Aguarda a próxima horda. Agora, a da televisão. Com o fecho da chave nas mãos:

-Tlec, tlec, tlec...

Os repórteres, essa fornada, se vão. Passam pela beira do lago. Pelo cisne, enorme, interminável, branco. Um repórter se aproxima, aponta a lente, fotografa. O cisne o encara, de baixo para cima, e, monocórdio:

- Croac, croac, croac...

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22.06.06

Ronaldo na história das Copas e nas capas do mundo

Um fenômeno, um fenômeno. Mesmo sem estar em campo, Ronaldo acaba de superar o mito, o Rei, Pelé. O placar informa que terminou o primeiro tempo e o gol teria sido dele. Deve ser um engano.

Faltavam algumas horas para o jogo e eu ouvi. Melhor, a Letícia e a Luana, 10 e 8 anos, amores da minha vida, indagaram, quase em desespero:
-Pai, o Ronaldo não vai jogar. Deu na Globo. É porque ele comeu muito?

Não, filhas, não. Mas se a Globo deu, a gente não discute.

Me lembrei de 98. Letícia tinha 2 anos, Luana nasceria durante a Copa. Estava dormindo, depois de uma noitada na redação, quando a Le entrou esbaforida no quarto:
-Pai, pai, coltalam o Lomálio, coltalam o Lomálio, falô na tevelisão...

Difícil explicar que o Romário não sangraria com aquele corte. (Pelo menos por fora).

A bombástica informação dessa Copa 2006 aterrissa no centro de mídia – isenta, imparcial e objetiva, como sabemos. Todos, quase todos, embarcam: Ronaldo no banco contra os japônios.

Pululam teorias, teses, confirmadíssimas, do porquê. Uma explanação sobre calorias é a dominante.

Moraci Santana, na véspera, divulgara um dos segredos mais bem guardados da República: o peso do Ronaldo. Noventa quilos e meio. Cinco a menos do que quando desembarcou na Suíça.

Ronaldo teria ficado furioso, cobrado Moraci, e ido parar no banco, é a informação que prevalece.

Toninho e a armata do Terra se entreolham. Digo ao Prada:
-Se a Globo deu, deu. São as tábuas da lei...

Ele e os rapazes, Wanderlei Nogueira junto, concluem:
-É fria.
E não embarcam.

Intervalo. Encontro a rapaziada e comento:
-Um fenômeno, um fenômeno. Mesmo ser estar em campo o cara marca.

Prósperi e toda a turma do Jornal da tarde, vários se juntam:
-Não pira, cara. É ele...

Resisto:
-Imagina! Deu na Globo. E o gol ainda foi de cabeça! Sem chance. Deve ser o Adriano, o Luisão... e eu vi! E eu li. Juro que li.

Foi enorme a quantidade de matérias sobre a ausência do Ronaldo no jogo, li algumas aqui no templo da objetividade, já quase prontas quando ainda faltava uma hora para a partida!

Toca o telefone:
-Pai?
-Sim, filha...
-Gostou do gol do Ronaldo?

Pois é, filhas. São coisas que acontecem, são coisas do futebol. Todos erramos. Até o papai, imaginem, erra. Aliás, ele errou logo na estréia.

Rádio Jornal do Brasil, Salvador, entrando no ar naquele dia e hora. Pergunto ao Frei:
-O senhor poderia falar um pouco sobre a morte de Dom Timóteo?
-Posso, filho, só que quem morreu não fui eu, foi Dom Jerônimo.

E não é que era o Ronaldo? Pedaladas, dois gols, ia fazendo um terceiro para a história das Copas, aquele do taquito do Gaúcho.

Na véspera, na zona de entrevistas, eu o vira passar, uma garrafa de Coca na mão esquerda, já pela metade. Não era light. Indaguei-me:
-Será que é chá preto?

O jogo acabou. Quatro a um contra os japônios, fora o baile. Ronaldo, o melhor em campo.

Encontro, aqui no centro da imparcialidade, muitos com quem falei antes, com quem tenho falado nestes dias de debate mundial sobre as calorias do Ronaldo

Vários são gringos.

Os mesmos que me entrevistaram sobre a coca preta, a existência ou não dos nuggets na dieta. Pergunto a uns e outros:
-Amigo, há publicado las notícias sobre el gordo?... Hi, are you publish your article about the fat?… Ciao, bella, e Ronaldo, sei grasso?

Estão todos com pressa, muita pressa. Uns quatro fazem grande esforço para não me enxergar. Corro ao Google. Ele está nas capas do mundo:
-Ronaldo quebra o recorde de Pelé em Copas do Mundo (Globe and mail, USA).
-Gordo de Alegria.(Olé, Argentina)
-O renascimento de Ronaldo. (Sport, Itália.)
-Ronaldo iguala o recorde de Müller.(Agência Ansa, Itália).
-Ronaldo iguala Müller.(Nouvele Observateur, França.)
-Ronaldo renasce. (Site da UEFA)
-Ronaldo, cada vez melhor.(L ‘Equipe, França.)
-Ronaldo entra para a história. (France Football)

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