foto: Reuters
Mãe e filho, África e Brasil. Jogadores dos dois times, sem combinar mas ao mesmo tempo, cada um em seu lado do campo, formam uma roda, se abraçam, e oram. Bola no centro. Adriano ergue mãos, braços e olhos para o céu.
(Esse realmente anda necessitado.)
O Emerson não pediu, Senhor!, mas por favor inclua-o no pacote. Ao menos, ajude-o a entregar aquela mesa, as três cadeiras e as duas luminárias que tem carregado em campo.
Ronaldo está arisco, chama, Kaká percebe e toca. Bem, vocês viram aí, o Galvão deve ter se esgoelado. Mas é preciso dizer algumas palavras.
No meu ângulo de visão está um japônio. Contra os austrálios, ele sentou-se exatamente a meu lado. Anota tudo, faz gráficos, cálculos e desenhos impressionantes. Se o Niemeyer vê, contrata.
Pois o Ronaldo acabou de dar aquele nó, deslocar a oitava vértebra do goleiro gano, rolar para as redes, e o japônio ainda está lá, parado, olhos arregalados e mãos à frente da boca:
-Oh!Oh!Oh.
No intervalo procuro pelo colega de isenção, imparcialidade e objetividade. O japônio está debruçado sobre a prancheta, ainda a calcular alguma coisa relacionada ao nó do Ronaldo. Tira os olhos do papel e me diz, em português:
-Bonito, bonito...
Emerson sente alguma coisa...Senhor, eu sou do bem, não pedi e nada tenho com isso, deve ter sido outro ... eu apenas roguei para que ele se livrasse daquela mesa, das três cadeiras e das duas luminárias.
Emerson toma a bola, dá três passos, tropeça em alguma coisa –talvez num fio das luminárias – , o Lúcio, aquele leão, impaciente, arranca a bola do Emerson e arranca. Toca para o Cafu.
Cafu - o jogo acabou e o Cafu ainda está correndo, meu Deus, como corre o Cafu! Aos 36 anos!-, o Cafu corre, chega quase à linha de fundo e entrega, mamão com açúcar, para o Adriano.
O Adriano é do bem, todos eles são, quem convive sabe, mas o cara tem santo forte, e isso não é coisa que dependa dele.
Senão, vejamos.
O Edmilson deu aquela cotovelada nele; sem querer, eles são amigos. O Edmilson embarcou de volta 24 horas depois. Joelho. O Robinho.
O Robinho já estava dormindo de caneleira, sunga, dando pedalada no lençol, pronto pra entrar e .... catapimba! Coxa. O pessoal do Rio me informa que os tambores da Vila Cruzeiro são quentes.
Devem ser, devem ser. O bandeira não viu, as coisas taparam os olhos dele. Naquela reprise ligeira, aqui no monitor da minha bancada, o Adriano esteve impedido por três vezes no mesmo lance.
Nas duas primeiras, ok, impedimento passivo, mas na hora da coxada-joelhada final na bola e o gol, me pareceu estar de novo à frente.
Compensação, compensação. Para mim ele sofreu pênalti quando tomou o cartão amarelo, mas há controvérsias, há controvérsias. De qualquer modo, Mr. Lubos Michel, o juiz, escapou de boa.
Se o eslovaquio não dá o gol, depois do pênalti e do amarelo, imaginem a coisa lá na Vila Cruzeiro; e o juizão, amanhã de manhãzinha, porta da casa em Bratislava, a se deparar com a galinha, a farofa e as velas...
Segundo tempo. O Gilberto Silva arruma tudo que faltava arrumar lá atrás, o Cafu pode seguir correndo, subindo. Outro partidaço do leão Lúcio, e Juan, mais uma vez, de fraque e cartola em campo.
Não fosse um zagueiro, e que ainda fala pouco e com a língua presa, todos já teriam percebido: Juan é, até agora, o melhor amarelo na copa. Tanto que um ooohhhhh percorreu o estádio quando aconteceu aquilo.
Parece incrível, mas ele errou. O Juan errou uma jogada na Copa!!! Os ganos quase aproveitaram, mas o oooohhhhh do estádio inteiro foi uma homenagem ao Juan.
Escolheram o Zé Roberto, outra vez, o melhor em campo. Ele jogou muito, fez um belo gol, é chei-di-perna, como dizem na Fonte Nova, mas o Juan tem sido um espanto.
Roberto Carlos, meu vizinho de blog. Nenhuma cerezada, até quase o final. Aí, não deram uma bola para ele (ele tinha razão, ia sair na cara do gol), e quando não deram a bola, ele cerezou.
Os ganos quase fizeram no contra-ataque, ali pela área do Roberto, enquanto ele ficou lá na frente, esperneando, p da vida, a discutir com o gaúcho.
Reparem, quando assistirem à reprise pela nona vez: ele fica lá na frente, dando pulos de raiva e depois, na jogada seguinte, dá um chutão lá de trás, como se quisesse surpreender o goleiro.
Não, não foi isso, não. O lateral de Araras estava uma arara, por isso aquele chutão. Sigo com minha tese. Há ali, pela ala esquerda, um problema de superego. Não estruturou direito, falta auto-censura, umas poucas gramas pelo menos.
Quando assistirem à reprise pela décima–oitava vez reparem: na seqüência desse mesmo lance o Roberto se vira para o banco e, se bem entendi, pede substituição. Percebam se não foi assim.
Kaká. Deu o passe para o primeiro, mas estava com muita pressa, errou muito. Não foi tão bem como nas outras, mas seu crédito é imenso.
Imenso é o Dida. Tapa o gol inteiro. Deve ser terrível o atacante invadir a área, chegar perto do gol e ... lá está o Dida, interminável.
Ronaldo, o gaúcho. Disse-me outro dia que está mais atrás porque o professor pediu... o professor enfiou o Juninho, que entrou bem e pode até não sair mais agora que o bicho vai pegar... e o gaúcho seguiu lá atrás.
Em 2002 o gaúcho era coadjuvante, não a estrela principal, que agora espera-se que seja e ele ainda nem chegou perto de ser. É até bom que esteja a dever. De repente, paga na próxima.
Ricardinho: entrou muito bem, anteviu e deixou o Zé Roberto na cara do gol.
Ronaldo. Procuro aqui no centro de mídia, e não acho, a turma isenta que jurava encontrá-lo sempre na padaria de Madrid batendo um sandubão de presunto – regado a coca preta-, ou no super, com o carrinho atrolhado de nuggets e leite condensado.
Agora virão os francesos. Pode até, no final, não terminar bem, mas o Ronaldo já deixou o alemônio Gerd Muller para trás, e é o maior artilheiro da história das Copas.
Passa por aqui Paolo Vicentino, do Corriere della Sera. Batemos uma bola, concordamos:
-É um time pragmático, europeu na postura, no jeitão em campo; não na mecânica, que trataremos em outro dia. Na definição, na conclusão, é, minimalisticamente brasileiro.
Gol dos espânios, contra os francesos. Gols dos francesos, contra os espânios. Os francesos avançam, 3 a 1.
A torcida verde-amarela, por aqui segue a berrar pelas ruas o que gritou em coro nas arquibancadas:
-Ih, f...deu, o Ronaldo emagreceu, ih, f...deu, o Ronaldo emagreceu...